Para que serve a utopia?

"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Escrever...?

 Decidi voltar a escrever, mas entre as caraminholas que vagam pela minha mente confusa, vaga também a pergunta: escrever sobre o quê? 

O que de fato importa ser eternizado em folhas com amontados de letras que formam palavras, frases, conexões...? O que de fato importa num mundo que elege Bolsonaro e Trump? Que acusa de assassina uma criança de 10 anos vítimas de abuso desde os 6 de idade? Num mundo que desde a Idade Média, quicá antes, se mata em nome de um Deus que eu, há tempos, decidi me afastar? O que importa? E, se importa, importa a quem?

Escrever sobre as descobertas de uma ansiedade que não me dá trégua e que me deixa sempre a postos para ter uma notícia ruim. E mesmo assim, quando ela chega, eu ainda desabo? Escrever que eu descobri que não é normal uma mente dinâmica 24 horas por dia. Que revelar as ideias recém-paridas da minha mente pode deixar as pessoas estupefatas? 

Escrever sobre como eu queria ser famosa,ser uma grande artista, mas me realizo em frente a crianças e que sinto um prazer enorme ao ouvir "professora" dirigido a mim? Escrever que apesar de entender que não, a educação sozinha não salvará o mundo, a escola ainda pode ser um refúgio para crianças que o mundo desde tão cedo insiste em mostrar a crueldade de um capitalismo selvagem neste mundo de asfalto e sem coração? 

Escrever que, de fato, um coração partido dói mais que joelho ralado, mas que a gente vai cuidando com vinhos, chás, amigues, e plantas em vasos de cimento? 

Escrever que o amor romântico é mesmo uma invenção social e nessa invenção a gente vai tentando inventar tudo: inventar o que achamos que o outro é, até que a invenção não se sustenta diante da realidade? 

Escrever. Talvez seja só pra deixar marcas no tempo. Eu, que descobri também, que gosto de marcas. Cicatrizes. Porque é clichê, mas elas contam sobre o que suportei, não sem dor ou drama, mas viva. 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

The purge, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência (?)

 (contém spoilers!)

Já havia lido a sinopse do filme 'n' vezes, mas me parecia um filme superficial sobre violência gratuita. Ledo engano. O(s) filme(s) - já são 5, mais seriado com 2 temporadas disponíveis na Amazon prime - relatam uma noite em que se pode cometer crimes, até mesmo homicídio, legalmente, ou seja, sem ônus algum com a justiça. A isso chamam de expurgo. A ideia divulgada é que "expurgando" a raiva em uma noite, a sociedade se beneficia com baixos índices de violência nos restantes dos dias, já que se expurgou o mal num dia e horário reservados para isso. 

Ba-le-la. 

Ao passar dos filmes (comecei com o 1°, de 2013 e segui com o de 2016 e 2018) vai ficando mais evidente, até se tornar verbalizado que tudo é um plano político de Estado para matar a população pobre e periférica e, de tal modo, reduzir os gastos sociais. 

Desde o primeiro filme, de 2013, - o mais fraquinho - , já é possível perceber interesses políticos e econômicos ao se notar o discurso sobre quem "pode" e quem não pode morrer e quem pode bancar um sistema de segurança para a noite do expurgo. Mas é no filme de 2018, o qual mostra a primeira noite de expurgo, que é revelado o plano político de extermínio por trás da ideia do "expurgo". 

Sim, o filme é banhado de sangue e violência, mas o que impressiona mesmo, aos mais atentos, pelo menos, é a possibilidade de analogia com a realidade de políticas defendidas por trump e bolsonaro. Ambos defendem o armamento da população (rica), e ambos defendem um estado que mata pretos e pobres nas periferias, tal qual ocorre no filme. A diferença - por enquanto - é que o expurgo, da forma como é retratado no filme, não é permitido legalmente. Apesar disso, no entanto, na realidade, o expurgo não tem dia nem hora pra começar ou acabar.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Olhar o passado e saber quem sou no presente...


Revisitei a Tese que finalizei já há mais de um ano e, passado tanto e tão pouco tempo - o tempo é sempre relativo! - eu gostei de revisitá-la e ver os agradecimentos e dedicatória que estão lá. Fora o cumprimento burocrático de ter que agradecer a CAPES - e não é que eu não seja grata, é que ainda acredito no financiamento de pesquisa como essencial e o pagamento de pesquisadores, de quaisquer níveis, como resultado de civilidade e nada mais, assim como deve-se remunerar todo e qualquer trabalhador ou trabalhadora - assim, exceto pelo primeiro parágrafo, gosto de pensar na perenidade desses agradecimentos. 
A tese é datada. O trabalho logo poderá ser tornar ultrapassado, mas o carinho e gratidão que sinto pelas pessoas citadas seguem moldando a mim, as minhas crenças e utopias... 


AGRADECIMENTOS

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, a quem agradeço pela possibilidade de dedicação exclusiva durante três anos desta pesquisa. 
Agradeço aos trabalhadores e às trabalhadoras do Estado de São Paulo que, ainda que sem saber, financiam as universidades públicas do Estado e, de tal modo, possibilitaram que eu cursasse graduação, mestrado e doutorado, desfrutando de um privilégio que, infelizmente, ainda é para poucos neste país. 
Agradeço à minha família, em especial ao meu pai (in memoriam) e à minha mãe, amiga e conselheira, que nutre uma confiança inabalável em mim e na vida e, assim, inspira-me a seguir sempre em frente, apesar das pedras do caminho. 
Às minhas amigas, umas de longa data, outras que a vida me presenteou ao longo deste trabalho. Amigas com quem troquei medos, angústias e as alegrias desse processo que é escrever uma tese. Correndo o risco de ser injusta cito algumas a quem a presença está também nas linhas aqui escritas: Angélica; Marina; Tamires, Alessandra, Nádia e Jordana: amigas com quem divido a utopia de dias melhores em que a justiça social seja uma realidade e não mais algo pelo que se lutar. 
Aos colegas da EMEF Padre Emílio Miotti que me acolheram, ensinaram e travam comigo diariamente a batalha por uma educação pública, laica, gratuita e de qualidade. Em especial ao Professor Daniel e à Gilmara, pela amizade e companheirismo. 
Às funcionárias da secretaria da Pós-Graduação, sempre atentas e atenciosas em ajudar nos processos burocráticos e resolver problemas. 
Às funcionárias e funcionários terceirizados, muitas vezes invisíveis, mas que realizam o trabalho que torna possível todos os demais trabalhos. 
Aos integrantes dos coletivos pesquisados, em especial aos respondentes dos questionários e entrevistas, pela contribuição que possibilitou esta pesquisa. 
Por fim, agradeço imensamente à Professora Débora Mazza que me acolheu no momento mais difícil dessa caminhada, acreditando em mim e neste trabalho, quando eu mesma já tinha desacreditado. 
A vocês, meu mais sincero, muito obrigada!




DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho aos movimentos sociais que lutaram e ainda lutam por direitos. 
Aos Movimentos Negros que nos revelam a verdadeira história por trás de heróis que carregam sangue negro e indígena nas mãos. 
Aos indígenas que resistem e que nos ensinam outras lógicas de existência e resistência. 
Aos movimentos feministas que me mostraram que lugar de mulher é onde ela quiser. 
Ao MST que ainda precisa lutar pelo direito à terra para produzir alimentos livres dos venenos do agronegócio. 
Aos trabalhadores e às trabalhadoras deste país que lutam cotidianamente para viver e sobreviver, mas ainda assim acreditam em dias melhores.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Estou a 2 passos...

e não é do paraíso... A dois dias de defender o doutorado. Foram quase 5 anos e entre estudos e arrumações dos arquivos acumulados ao longo desse tempo encontro pérolas como essa carta a duas pessoas que são parte fundamental desse processo todo que é "doutorar."...
A carta foi escrita em 5 de dezembro de 2016. O lugar era Praia, Cabo Verde, África!!! De lá para cá já são mais de 2 anos e muitas mudanças também... Muitas! 


“estranho seria se eu não me apaixonasse por vocês...”

É difícil escrever para duas das pessoas que me fazem lembrar que talvez exista um Deus e que apesar dos meus melodramas classe média sofre, Ele na verdade, na possibilidade de ser, é bem legal comigo ao colocar pessoinhas pra cruzar o meu caminho nesse jogo sádico que as religiões nos contam sobre um Deus que existe pra controlar tudo que acontece no mundo.
Lembro com carinho de vocês. Falo de vocês. Os cearenses já conhecem vocês. Eles sabem que a Angel é foda e uma artista do caralho e com quem eu tive uma sintonia instantânea. Que a Marina é a engenheira mais humanoide que existe, escreve bem pra caralho, e que está fazendo um mochilão pela América do sul. Sabem que vocês são o melhor que me aconteceu no doutorado e que, “””””””só””””””” por isso, valeu a pena estar nesse rito acadêmico que eu ainda não sei muito bem como vou fazer, e pra que serve... mas que me sinto na responsabilidade de encontrar um caminho e que, no fim, isso possa minimamente contribuir com esse mundo bizarro de egos científicos e sensos comuns que dialogam na busca egocêntrica por “ser alguém na vida”. Não sei ainda se isso é possível e, se conseguir alcançar uma possibilidade nesse caminho, talvez já me sinta realizada.
Por aqui as coisas vão bem... Acho que tive uma queda emocional nos últimos dias e fiquei meio bodiada. Foi o celular que pifou. Depois a viagem pra Tarrafal, que foi boa, mas me senti muito sozinha, mesmo com os meninos. E sobre o Henrique... Ele é egocêntrico e hiperativo, não sabe se comportar muito nos lugares, rs, mas tem um coração bom e quando entramos no mar, encontramos de novo uma sintonia e sinto que ele tem um cuidado comigo e quer me mostrar as coisas bonitas que já viu. Aqui tenho nadado muito até o fundo, o mar aqui é calmo, parece que quer sempre nos agradar com águas claras e como há mtas pedras, vemos muitos peixes e bichos estranhos do mar (eu trouxe óculos de natação e ele tem snorkel e pés de pato)... Têm sido momentos lindos esse contato com o mar e sua “população” rs. O Ricardo, o outro cearense, é uma pessoa incrível, calmo, sensato, inteligente. Tem 26 anos e já está qualificado no doutorado. É humilde e veio de uma família simples do Ceará. Gosto muito de conversar com ele, e viramos bons amigos. Já saímos algumas vezes só os dois porque o Henrique surta, toma ritalina e fica numas nóias de escrever artigo...
Tarrafal tem uma praia linda. É uma cidade que de longe lembra Paraty, mas 378 vezes mais calma. Fomos na sexta pela manhã e voltamos sábado a tardinha... Chegando em casa eu tive um surto nervoso que agora eu estou até com vergonha.  [censurado!]   A professora Gertrudes veio até aqui, e eu estava nervosa, quase chorando, brava... mas era tudo sintoma de um bodezinho de quem se sentia sozinha e só queria tomar um banho e ficar quietinha, sabe.... É intercâmbio é uma delícia, mas também tem essa coisa de solidão que bate forte no peito... e tinha um churrasco na casa do cara q eu pedi ajuda e os caras ficavam me chamando pra comer, tomar cerveja, pra eu ñ ficar nervosa, pra eu me acalmar e eu só tinha vontade de mandá-los a merda... rs.... Depois me arrependi pq tinha um ex-professor da universidade aqui q era bonitinho... Enfim, logo a mulher chegou e eu entrei em casa e o bote foi passando...
Ela é bem legal. Conversamos bastante e hoje ela me contou que é adotada. O pai era militar. Trabalhou na ditadura. Ela só descobriu que era adotada aos 20 anos. Descobriu na busca que nasceu de uma militante presa na ditadura, na cadeia. Q a certidão de nascimento era falsa. Ou seja, o pai, milico, pegou ela da mãe biológica e fez uma falsa adoção... Eu jamais imaginei que saberia uma história dessas de alguém com quem eu estava tomando café da manhã de pijama num domingo de sol.... Agora ela procura pelo pai que a mãe biológica ñ quer contar quem é. Sim, ela encontrou a mãe, mas os pais adotivos não sabem. O pai adotivo já morreu....
Ao mesmo tempo, ela me fez surtar com a tese. Falou mal do Boaventura de S. Santos. Me fez pensar várias coisas e me sinto de novo na estaca zero, mas apesar disso, acho que ela pode me ajudar. Boaventura é um português, homem, hétero que quer falar dos países colonizados do sul. Em síntese, ele faz a laranjada, mas a laranja é nossa. Seria paradoxal eu falar do epistemicídio usando o referencial, de novo, de um europeu que nos tira o lugar de fala, e como eu não pensei nisso antes, gente?!?!?!?!?!?!?!?!!!! Tô em surto com a tese, me sentindo estúpida e incapaz.... ela me convidou pra participar das reuniões do CLE e me parece ser uma possibilidade interessante, mas me sinto burra pra esse grupo... rs... Quero abrir um quiosque e vender cerveja na praia aqui, já que eles ainda não se atentaram pra esse nicho de mercado, nem mesmo os chineses que estão aos montes por aqui também (e só "se reproduzem entre eles", segundo o Henrique, pois é, eu disse q ele fala bobagens...rs).
Como vêm, continuo egocêntrica e com uma necessidade enorme de contar tudo de-ta-lha-da-men-te pra vocês. Sinto falta de vocês todos os dias e fico feliz com cada mensagem que chega. As cartas foram as coisas mais lindas que eu podia receber e me deixou mais feliz. Foi como chocolate quente da Copenhagen num dia frio.
Angel, eu vou sempre querer saber de você. Quero saber das suas artes. Dos seus contos. Das suas plantas e dos gatos. Talvez a gnt se torne as velhas dos gatos e tudo bem se isso nos fizer felizes, né? Sei que você tem uma força e que é mto chato ser tão forte as vezes, pq a gnt quer mesmo ter o direito de surtar e pedir colo. Fico feliz de você ter pessoas como a Mirela e a Thaís com você e aí percebo que atingimos o ponto do amor mesmo. Porque não senti ciúmes, como acontece com relações inconstantes, senti uma alegria confortante em saber que há pessoas especiais ao seu lado e torci para que elas possam ser todo o colo que você precisa, enquanto eu não estou aí pra ser parte desse colo também...
Marina, eu admiro tanto a sua lucidez em dizer coisas bonitas sem ser piegas e pensar no amor de forma tão racional, mas ao mesmo se entregar com a loucura dos que amam inconsequentemente. Gosto disso. Quando é que vai ter um cara que vai perceber que a gente é mesmo muito foda e sim, isso é motivo mais que suficiente pra querer fazer qualquer coisa pra ficar com a gente? Bom, na pior das hipóteses, seremos as velhas dos gatos, e dos cachorros também, por que não?
Eu já escrevi demais, sem a beleza da arte da angel, sem o toque de poesia da escrita da marina, mas com todo o amor de quem se sabe feliz, mesmo em momentos tristes, por saber que tem a sorte de encontrar pessoas que me tornam uma pessoa melhor a cada dia!
Amo vocês.
“Não vejo a hora de te encontrar, e continuar aquela conversa, que não terminamos ontem...”

Mirian J 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

e de repente é a vida que me atropela. 13. não sei se é meu número da sorte ou do azar. da primeira vez foi uma moto. "você nasceu de novo, disseram alguns." da segunda, foi só a vida e suas peças inexplicáveis, foi aquela terça feira modorrenta que veio com coisas que nunca passaram pela minha cabeça e me pegaram no ponto fraco... o pé, não mais quebrado, ainda lateja e me deixa manca. mas a vida me acertou em cheio em cada parte do meu corpo. de cada função vital. o peito que sufoca. o coração que acelera. as pernas que bambeiam. a fala que trava. gagueja quando não deve. o estômago que revira. as bochechas que coram. o sono que se vai. o riso que brota fácil. as lágrimas que transbordam o que não cabe mais só dentro de mim.


sábado, 5 de maio de 2018

Diário de professora

De repente, era tudo novo de novo. O sorriso no rosto não deixava esconder a alegria em estar de volta ao chão da escola e agora, na escola que mais acreditava - a escola pública. Finalmente eu havia chegado exatamente onde devia estar... 

Foi assim que no dia 15 de março minha vida girou 180º e passei a ser novamente a Professora Mirian! Como gosto de ouvir isso... Não sei se por ego, vocação (coisa q não acredito) ou por carência, mas adoro o som: "Professora Mirian". 

Mas nem tudo são sorrisos e músicas para o ouvido na escola, seja ela pública ou privada. Recomeçar, após 4 anos longe da sala de aula foi uma loucura: mudança de rotina, novos desafios, de todos os tipos, e a cabeça a mil pensando em como cativar, como conquistar, como ensinar português, matemática, ciências, história e geografia de forma significativa... O que é significativo para crianças de 9, 10, 11, 12 anos com realidades tão distantes da que eu vivencio? 

Como alfabetizar o menino que há pouco tempo voltou a escutar e não descuidar das outras 27 crianças com diferentes necessidades? Como lidar com a criança que agride a mim, aos colegas e à gestão de forma física e verbal, sabendo que é uma sobrevivente num território de abandono, violências e pobrezas (de todos os tipos)... Dá nó na cabeça e, pior, no coração. 

Sempre "militei", bem entre aspas mesmo, porque nunca me considerei uma militante como acredito que se precisa ser, pelas causas sociais, mas sou aquela militante de internet, que lê, escreve e posta muito no facebook lamentando as desigualdades todas que assolam a sociedade dentro desse capitalismo selvagem... 

Mas agora, cá estou, de frente com a realidade sobre a qual li e escrevi muitas e muitas vezes. Da qual já me exaltei em discussões acaloradas com quem não consegue perceber a realidade para além do próprio umbigo classe média. A percepção do tamanho da impotência sobre estruturas que oprimem me revelaram uma humanidade avassaladora que chega a doer de tão humana. 

Revisitei tanta coisa em mim, da minha formação, das experiências passadas e foi um choque me perceber mais tradicional e conteudista do que imaginava e, então, busco me reconstruir, sem perder o que importa, mas sempre questionando muito sobre o que realmente importa... tenho me atentado à importância da liberdade das crianças, da não vigilância como controle, dos corpos livres, do brincar. A escola pública está me sendo a melhor escola para a busca de uma educação, de fato, libertadora, mas não tem sido nada fácil... . Esse exercício é ora prazeroso, ora bastante doloroso... Difícil romper barreiras tão bem alicerçadas, que a gente descobre não servir pra muita coisa, além do controle... mas tenho seguido tentando, aprendendo mais que ensinando, errando e acertando... 

Foi essa realidade que me fez ver, na prática, a importância do capital cultural para o desenvolvimento integral da criança. A escola, sem uma reforma tributária, sem reforma agrária e com essa desigualdade social escandalosa que assola o país não será a salvação das crianças, como insistem em romantizar alguns, uma vez que a escola sozinha não dá conta de acabar com a opressão, com a miséria, com a violência vivenciada por tantos estudantes nas 19 horas em que não estão na escola. E digo isso de um lugar de privilégio: não posso reclamar do meu salário e benefícios. A sala de aula onde atuo - e todas na escola - tem notebook, data show e rádio. As crianças almoçam ao chegar na escola e tomam lanche no meio do período. Trabalho com professores muito bem qualificados, com formações sólidas, muitos com pós-graduações, mestrados e doutorados e engajados em promover uma educação significativa. Trocamos experiências, ideias e reflexões. Reflexões que nos levam a entender que a escola pode sim ser um instrumento poderoso de mudança social, mas apenas um, diante da necessidade de tantos outros.

Já passei por três escolas particulares. Em nenhuma tive condições de trabalho como as que tenho agora - do salário às condições concretas em sala de aula. Enquanto minhas condições materiais de trabalho mudaram para melhor, inversamente, a condição socioeconômica das crianças são, geralmente, inferiores à das crianças das escolas particulares. Assim, chega-se a óbvia constatação: é a realidade a que são submetidas as crianças nas 19 horas que estão fora da escola que impactam significativamente seu desempenho escolar, não o contrário. 

Assim, compreendi que lutar pela educação só faz sentido se lutarmos por igualdade socioeconômica. Sabe por que a Finlândia é o sucesso que é na educação? Porque lá não tem criança passando fome. As crianças lá vão à escola para estudar, não para, primeiramente, comer, como muitas aqui. Nos EUA, onde a desigualdade também persiste, a educação tem seus graves problemas também. Não adianta frases e discursos sobre o poder transformador da educação se nada for feito nessa sociedade que acredita que riqueza e pobreza estão atreladas à meritocracia. A educação só será democraticamente transformadora quando comer e morar dignamente deixar de ser privilégio, todo o resto é demagogia. 

Apesar disso, continuo com Paulo Freire para quem a educação não muda o mundo, a educação muda as pessoas. Apesar de tantos reveses, é isso que estou tentando fazer: mudar pessoas. 


domingo, 18 de fevereiro de 2018

História Cruzada


Ele só tinha 20 anos. Morto. Assassinado. Não foi assalto. Ele era o que a polícia chamava de “suspeito”. Morador de favela, não teve tempo de pegar sua carteira e apresentar os documentos. Como ‘cidadão suspeito’ não devia ousar colocar as mãos no bolso sem avisar que pegaria a carteira ao ser abordado pelo policial. Isso o tornou ainda mais indigno de qualquer dúvida sobre seu caráter. Sua cor e seu endereço tornavam-no automaticamente um suspeito perigoso. Era estudante e trabalhador, há pouco tempo havia conquistado uma vaga como estagiário num escritório pelas notas altas que o destacaram na turma. Sonhava terminar o curso na faculdade que conseguiu ingressar graças “às esmolas que o governo dava pra essa gente que não se esforça”. Ansiava pelo diploma de advogado para lutar contra as injustiças sociais, como essa que o vitimou fatalmente. 

Enquanto tiros findavam mais um sonho, do outro lado da cidade, onde se tira selfie com a polícia, Matheo, um outro rapaz, também de 20 anos gostava de fumar, só para relaxar e desestressar das cansativas aulas da cara universidade que seus pais bancavam. Com o emprego garantido no escritório do pai, não havia porque se importar com notas altas. Fazia o suficiente. O carro, presente por ter passado no vestibular, fora roubado recentemente e Matheo então comemorou a intervenção federal militar. “É preciso acabar com a farra dos bandidos”, repetia em tom nobre, como o lugar destinado a Matheo desde o berço. Sentia-se aliviado e um pouco mais seguro ao ouvir no noticiário que mais um “bandido” havia sido assassinado: fora Ele, o rapaz sem nome, jovem sonhador, recém-contratado estagiário no escritório do pai de Matheo, mas no jornal do horário nobre, apenas um “suspeito que trocou tiros com a polícia” ainda que estivesse desarmado. 

No país da democracia racial, dos “antagonismos equilibrados” e da meritocracia, evidente que as histórias nada têm a ver com desigualdades raciais e sociais. Além do mais, são só “estórias”, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

"Não tenho provas, mas tenho convicção"

Uma pessoa me disse que há tempos não encontrava com alguém que defendesse Lula. Não me assusta, embora me entristeça a afirmação. Sei que faço parte de uma minoria que não se deixou contaminar pelo ódio cego que quer "Lula na cadeia". Mas muitas foram as minorias que defenderam tantos outros que sofreram na convicção de uma maioria enfurecida. 

Foi assim com os judeus no Holocausto. Quantos ousaram defendê-los e quantos foram os que defenderam a perseguição, o campo de concentração, a morte a tortura sob a alegação de serem o mal da nação alemã? 

Foi assim com os africanos escravizados. Quantos se compadeceram? Quantos lutaram pela liberdade e por condições dignas de existência dessas pessoas?

Foi assim com Nelson Mandela que lutou por uma África do Sul mais equânime. 

E foi assim também com Jesus Cristo que ousou distribuir peixes e pães a quem tinha fome, andou entre pobres e doentes, perdoou e abraçou a prostituta e entrou quebrando tudo no templo quando quiseram fazer de Deus um comércio... CRUCIFICA-O!!! Foi o que recebeu em troca de suas atitudes. 

Foi sempre uma maioria enfurecida e/ou interessada em defender seus próprios interesses a responsável pelas maiores barbáries que temos na História. E ainda assim, seguimos repetindo os mesmos erros. 

Lula foi condenado em Segunda Instância ontem, 24/01/2018, pelo TRF4, tendo ainda sua pena aumentada de 9 anos e 6 meses para 12 anos e 1 mês de prisão. 


Não há surpresa, assim como não há provas, mas sobra convicção. "Não temos provas, mas temos convicção." Foi assim que tudo isso começou, sob a comemoração de muitos que, alienados diante de uma mídia que plantou ódio contra aquele que, dentre tantas outras coisas, levou energia elétrica a muitos brasileiros e brasileiras pelo programa luz para todos, construiu 18 novas Universidades federais, fez o salário mínimo ter aumento real, tirou o país do mapa da miséria.... coisas que, para a rede Globo (essa que sonega milhões aos cofres públicos) e cia não são importantes e, assim ela fez muita gente que comprou carro com IPI reduzido, que cursou Universidade, seja nos novos campi, seja pelo Pró Uni ou FIES, que viajou de avião pela primeira vez, vociferar bravamente contra Lula. 

"Lula na cadeia!", "Ninguém deve estar acima da justiça", esbravejam outros, mas se calam diante dos engavetamentos das tantas denúncias comprovadas com áudios e malas de $$$$$ de outros políticos. Iconicamente, no mesmo dia em que Lula é condenado, José Serra escapa, mais uma vez, ileso das acusações. 


Contra fatos não há argumentos. O cenário desenhado apenas evidencia um ódio plantado que já se enraizou. Um ódio irracional e parcial. Não há provas. Mas há ódio e convicção e, assim, desde 2016, vemos nossa Constituição ser rasgada num processo que fere a democracia como já denunciaram tantos intelectuais, artistas e mídias internacionais.

A insanidade odiosa é tamanha que vale dar autoria de textos a Marieta Severo, historicamente defensora de Lula. Vale apoiar o texto que coloca entre os seus crimes, pagamento de pão e mortadela a seus militantes e simpatizantes. Vale a mentira descarada para justificar o ódio. 

Desde o golpe contra Dilma Roussef, assistimos estarrecidos a perda de direitos: o congelamento dos investimentos públicos por 20 anos, considerada a "PEC do fim do mundo"; "Reforma trabalhista" e agora a corrida para a compra de votos para a "Reforma de Previdência", apesar do Relatório indicar que a previdência não é deficitária. Todas essas medidas afetam diretamente a vida do trabalhador e da trabalhadora que terá cada vez mais educação e saúde públicas sucateadas, fim do aumento real do salário mínimo, condições de trabalho degradantes; e praticamente a impossibilidade de desfrutar de aposentadoria. 

Era muita ingenuidade pensar que após o golpe de 2016, os abutres que assaltaram a nação permitissem uma eleição limpa e democrática em 2018. Há muito o que vender para os gringos até que nos tornemos novamente colônia de algum país imperial. O Brasil não é mesmo para principiantes.

Com a condenação de Lula, perdemos todos. Se são capazes de fazer isso com o maior estadista que o Brasil já teve, imagina o que poderá ser feito contra qualquer anônimo cidadão se houver simplesmente convicção?!? Dia triste para quem, possa até não gostar de Lula, mas sabe que  democracia e justiça deveriam estar além de afetos e desafetos políticos.

O golpe segue seu curso. 


#CadêAsProvasContraLULA

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

José Lenin



Quando naquele 2 de abril eu fui te adotar, Lenin, e tão logo você se levantou na caixinha, se destacando dos seus irmãozinhos gatos, peguei você no colo e não larguei mais. Nunca te disse isso, mas não larguei por vergonha da minha covardia. Naquele hora senti um medo tão grande que tomou conta de mim. Olhava pra você, ainda tão pequeno e frágil, com miado baixinho e pensava se seria capaz de cuidá-lo bem. Fico pensando se isso foi presságio da angústia de agora.

O tempo foi passando, você foi crescendo e o medo passando. Parecíamos uma duplinha perfeita no nosso lar doce lar que você enchia de pelinhos e brinquedos por todos os cantos. Não foi difícil te alimentar, dar água fresca, abrir a torneira quando você queria beber água corrente e até mesmo dar os remédio que você precisou. Até dia 26, a maior angústia tinha sido a espera durante a sua castração, mas logo veio o alívio de vê-lo acordando bem e estar 110% no dia seguinte, subindo por tudo e pulando por cima de mim.

Eu não conhecia muito os gatos. Não sabia q você roeria meus fones de ouvido, carregadores e arrancaria todas as borrachinhas que tampam os parafusos da minha escrivaninha. Não sabia que você tentaria beber água do vaso sanitário, que ia miar pra pedir um pouquinho de requeijão na colher e querer lamber a lata de cerveja toda vez que eu pegasse uma latinha. Você era mesmo parça! Não sabia que, oposto ao que todos dizem, seria tão apegado a mim, estando sempre à minha espera na porta, não importava o tempo que eu tivesse ficado fora, me acordando de manhã com miadinhos suaves, me amassando como um pãozinho (ou nem tão inho assim), ficando nos meus pés enquanto eu escrevia a fórceps a tese de doutorado e ficando na pia ou no vaso sanitário a me observar enquanto eu tomava banho. Depois de você eu não morava mais sozinha, tínhamos um lar!


Até que na última terça feira, dia 26, você decidiu dar um rolê – meu amor por você, Lenin, te queria livre também, jamais considerei deixa-lo aprisionado em um micro ap. sem poder ter contato direto com o sol ou com a natureza – mas dessa vez o rolê se estendeu. Até agora você não voltou e o meu coração está tão apertado que parece que vai explodir a qualquer momento. A angústia da espera e do não saber se você comeu, se está machucado, se tomou água... Mais um desses silêncios ensurdecedores pelo barulho perturbador que fazem dentro do coração.

Lenito pequetito, vc me fez tão feliz!!! E quero ser grata apenas por ao menos já ter vivido esses 6 meses de descobertas e alegrias com você. E não vou me despedir por ora. No meu coração e aqui em casa sempre terá seu espaço para se você puder e quiser voltar!!! Mas tudo o que eu mais quero é q você volte, de qualquer jeito, pra eu te encher de amor e comidinhas gostosas! Vou seguir te esperando, com a porta e o coração escancarados, e ainda que não seja nessa vida, qualquer dia desses eu volto a te encontrar...


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Resposta a Ana Paula Henkel

Ana Paula, já torci tanto por você. Já vibrei por seus pontos e conquistas na quadra de vôlei, mas agora tem sido difícil. Sim, eu preciso trabalhar mais a minha tolerância também, mas penso que seria negligência da minha parte ser tolerante com a desonestidade intelectual que você usa a sua coluna “Ultraconservadores do mundo, uni-vos!”. 



Concordo que há muitos “engajados”, como você mesma nomeia, que praticam da mesma intolerância que criticam. Problemas dessa polarização que nos metemos e que precisamos superar com debates sadios e qualificados, nos quais argumentos sejam mais importantes que adjetivações. 

Sim, eu entendi a ironia no seu texto. Ironia que você usa, repito, com muita desonestidade intelectual. Para começar, você como tem se mostrado muito bem informada sobre os temais do debate, deve saber que “homossexualismo” é palavra em desuso porque o “ismo” se refere a ideologias e patologias, o que não representa a homossexualidade que, ponto comum na ciência, não é doença. 

Outro ponto que me intrigou é saber de onde você tirou essa tal “ideologia da data de nascimento”? De novo, sim eu entendi a ironia e a analogia, mas de novo, Ana Paula, você demonstra um grande desconhecimento sobre as pesquisas da área ao buscar a analogia com a Ideologia de gênero, coisa que não existe. Existem estudos sobre gênero, essa construção social que nos impõe em papeis sociais simplesmente por nascermos com vagina ou pênis. Essa construção social que mata em média 2 mulheres por dia por homens que se sentem seus donos – coisas do machismo. Bom, mas voltando ao seu texto, você usa da sua analogia de forma tão desonesta, imputando a quem te critica uma verdade que não existe. A ideia de defender os direitos da criança é uma forte bandeira de quem estuda gênero, por exemplo, olha só! Aliás, esse mesmo povo que você critica, é contra a redução da maioridade penal, por acreditar que não é enjaulando seres humanos, ainda em fase de desenvolvimento que resolveremos o problema da violência. Gostaria também de saber qual seu engajamento em casos de pedofilia nas igrejas e templos? Você pede para fechar também? Boicota? Talvez – hipótese – fosse sobre isso que os jacobinos, esses que você critica, falavam. 

Num outro ponto concordamos: a exposição poderia ter uma indicação etária. Proposta defendida pela Manuela D’Ávila, deputada estadual pelo PCdoB, esse partido de gentalha de esquerda, sabe? Não vou entrar no mérito sobre o que é arte ou não. Não me sinto habilitada para tal. Mas, por enquanto, sei que a minha liberdade me permite ver ou não ver uma exposição. Gostar ou não gostar, mas nem por isso impedir toda uma sociedade de que veja ou não algo a partir do meu gosto, pessoal. O mundo gira além do nosso umbiguinho, não é mesmo? 



Por fim, adoraria poder ver o socialismo que você diz que começa com a socialização dos filhos – ironia, eu sei!!! – mas o que tá rolando mesmo, Ana Paula, é socialização da censura, professores que estudaram anos e anos para ensinar e explicar fatos históricos, construções políticas e ideológicas – esta palavra assustadora que parece coisa da esquerda, mas que apenas significa conjunto de crenças, valores e culturas – estão sendo chamados de doutrinadores, enquanto Alexandre Frota, Zezé de Camargo e militares são as vozes a ditar sobre educação, política e sociedade.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Quando um homem estupra uma mulher, ele estupra, ainda que emocionalmente, muitas mulheres ao seu redor. A cada novo caso o sobressalto: podia ser eu! Essa sensação se amplia drasticamente quando o agressor é um amigo, o cara do rolê, aquele com quem você dividiu confidências, aquele que você acolheu no machismo que ele buscava desconstruir; aquele em quem você acreditou que poderia confiar para empenhar a luta por um mundo melhor.
Quando um homem estupra uma mulher, ele fere muitas outras. Ele mostra que estamos ainda mais vulneráveis do que acreditávamos estar. Ele mostra que o discurso de desconstruidão feminista não nos garante segurança, não nos garante nada.
Quando um amigo estupra uma mulher, ele coloca o nosso feminismo à prova. Ele nos joga na cara a complexidade das ideologias e dos coletivos.
Quando um homem, um amigo, estupra uma mulher ele nos mostra que o feminismo é necessário e precisa, antes de tudo, ser uma união de mulheres, de nós por nós, porque nos enfia goela a baixo o gosto amargo de saber, de fato, que "todo homem é um estuprador em potencial".

domingo, 13 de agosto de 2017

Carta ao meu pai



Mais um dia dos pais e você não está aqui.

É bem verdade o que dizem, que a gente se dá conta do valor dos pais quando eles faltam. Hoje o medo de perder a mamãe me dá calafrios e é algo sobre o que não quero pensar. Já fez 12 anos que você se foi, da maneira mais estúpida que alguém pode deixar esse planetinha confuso, e quando penso nisso ainda parece que foi mentira, só um pesadelo, mas a realidade da sua ausência me sacode pra dizer que foi tudo verdade.

Eu mudei muito desde aquele dia. Eu me formei, trabalhei como professora, construí ideologias que são minha base e continuo estudando. Algumas dessas ideologias vão ao encontro do que você dizia e que, à época, eu achava um absurdo, sobre como, por exemplo, a igreja é só uma forma de controlar as massas, outras que talvez discordássemos, como os estudantes no fundo querem sim aprender, mas a escola é que não atende mais a necessidade de uma nova juventude que no Século XXI não quer mais se enfileirar atrás de nucas, como se fazia no século XIX.

Acho que no fundo, apesar das discordâncias que teríamos, você estaria orgulhoso de mim. Porque seus valores também fazem parte do que sou hoje e agora sou capaz de entender as suas falhas e deslizes pelas quais tanto brigamos. Não concordo ainda, mas entendo. Será que conversaríamos sobre tudo isso? Sobre amor e traição, política e corrupção, a escola e esse sucateamento da educação?

Tantas perguntas que ficarão sem respostas. Mas aos poucos, bem aos poucos mesmo, vou revisitando tudo com cuidado, buscando as respostas possíveis e guardando as perguntas para o dia em que puderem ser respondidas.

Para você, Pai, que, longe do herói das histórias maniqueístas, foi meu pai real, cheio de defeito, mas como tantos pais, um lutador cheio de qualidades também, que acreditava que precisava me dar tudo que não teve, e assim o fez. Feliz dia dos pais!


sábado, 29 de julho de 2017

Meu pai preto, meu privilégio branco


Diferente de muita gente, eu me descobri branca. Desde que me conheço por gente eu me declarava como parda. Isso porque lá nos idos da minha 2ª série do então primário eu aprendi aquelas equações raciais: preto + branco = pardo ou mulato (expressão que bem mais tarde fui descobrir o horror que carrega!). Meu pai é preto, minha mãe é branca, sou parda, defini. E assim foi até quase os quase 30, quando me disseram branca de forma mais enfática.

À época eu não tinha a menor aproximação acadêmica com as questões raciais, mas o mundo racializado, queiramos ou não falar de raça, sempre fez parte da minha vida. Era comum ouvir na infância do lado branco da família expressões racistas, muitas vezes em forma de piadinha e as vezes direcionadas ao meu pai, “mas era só jeito de dizer”, era o que eu ouvia também, afinal, no Brasil, ninguém é racista, embora saibamos haver racismo, não é mesmo?

Como o racismo carrega consigo quase que imbricadamente a questão de classe, ao ir para o Ensino médio em uma escola particular, e aí está o meu primeiro grande privilégio branco, ainda que sendo bolsista, diferente da escola anterior, eu era a menina mais próxima de negra na sala. Ainda assim, reconheço meu privilégio porque, embora meus pais suassem muito pra pagar a escola particular, tinham famílias suando muito pra conseguir se alimentar, pra não morrer de fome. Realidade que faz parte da geração dos meus pais, não da minha. Mas junto com o privilégio branco, vem a realidade te mostrar que você não faz parte, de fato, daquele mundo: era comum um professor humilhar os alunos dizendo que tinham “letra de pedreiro”. Até que um dia eu falei, meu pai é pedreiro, professor, ao que ele me respondeu: seu pai não é pedreiro, Mirian, ele deve no mínimo ser mestre de obras ou você não estaria nessa escola. Calei.

Não me declarava parda porque “estava na moda ser preto”, até porque essa ““moda”” é recente, fruto da luta do movimento negro que teve que gritar por séculos para começar a ser ouvido e ter suas pautas valorizadas. Mas há mais de vinte anos, quando era criança, o racismo era mais explícito e desavergonhado. Ninguém jamais questionou ou repreendeu o racismo de quem me zoava por causa do meu “cabelo ruim”, do qual “miojo” foi o apelido mais “carinhoso” que recebi nos anos escolares. “Você nunca pensou em alisar?” era a frase me dita, vinha antes de um oi, muitas vezes.

E fora o fato do meu pai ser pedreiro e ter sido assassinado justamente quando estava erguendo o muro de uma casa de praia de um amigo – branco – que temia a segurança, em um assalto à casa que terminou mal, o racismo estrutural praticamente não me afetou. Até porque isso, dirão os mais perversos, não teve nada a ver com raça, seria do mesmo jeito se meu pai fosse um bancário engravatado. É que ele não era. Era pedreiro, como muitos homens pretos são. “Coisas do acaso”.

Talvez o fato de eu me descobrir branca tenha a ver exatamente com o distanciamento acadêmico que tinha das questões raciais. Porque eu não me autodeclarava parda por uma questão política, como faço agora, mas por uma equação desastrosa ensinada às crianças e que representa a perversa política de embranquecimento, utilizada para “acabar com o mal negro” do Brasil, política da qual eu sou resultado.

Sou tão resultado que é o lugar em que muitos querem me colocar, e eu não deveria me incomodar, afinal, ser branca é ter privilégios, questão que não nego e nem poderia a não ser com muita desonestidade. Porque eu sei que muito provavelmente jamais serei seguida numa loja do shopping; e os meus cachos, embora tenha levado muito tempo a gostar deles, são vistos como “cabelinho de anjo” pelos mais dóceis.

Tenho ainda um referencial branco que é simplesmente extraordinário, a quem só posso sentir orgulho: minha mãe, mulher guerreira, que enfrentou todas as perversidades que a vida colocou em seu caminho com uma força e doçura que fazem dela meu exemplo a seguir na busca de ser um pouquinho melhor por dia.

Apesar disso, não consigo me declarar branca e negar uma parte do que sou. Como poderia me declarar branca com o rosto do meu pai preto estampado em todas as minhas recordações? Eu não deveria mesmo me incomodar de negarem a minha paternidade porque meu fenótipo é claro? Não deveria me incomodar em ter apagada da minha história tudo o que meu pai representa na minha vida?
Meu pai, eu e a Pepita

Meu pai, minha mãe, o padre e eu na minha 1ª comunhão


A minha escolha em não me declarar branca é política, é porque não comungo com a política de embranquecimento iniciada no século XIX e que, ainda que de forma silenciosa se perpetua até os dias atuais. Porque não vou negar minha ancestralidade. Mas nem por isso, vou deixar de enxergar os privilégios que tive e tenho, nem deixar de estar vigilante com a irmã negra mais retinta que, com certeza, foi e é vítima de um racismo que eu tenho o privilégio de desconhecer.

Sei que não estou sozinha nessa, encontrar outros relatos, como da Aline Dias, ajuda-me nessa busca de encontrar meu lugar nesse mundo e fazer parte dessa batalha diária que é a luta contra o racismo, sem com isso, tirar o lugar de ninguém. Eu estou aqui pra somar, não pra subtrair. 

domingo, 23 de julho de 2017

Merlí


Um seriado espanhol que encontrei por acaso no Netflix. Já havia ouvido falar e decidi me aventurar por novos 13 capítulos sobre esta história de um professor de filosofia. Merlí, além do nome do seriado, é também o nome de um excêntrico professor de um Instituto Secundário em Barcelona.


Foi um amor que durou uma semana e já me deixou aquele sentimento de luto pós-moderno, desses que a gente sente ao se despedir, ao menos por um tempo, de um seriado que te faz perder horas em frente a TV. Diferente da paixão, é desses amores que vai crescendo a cada novo encontro e descoberta, até se perceber completamente envolvida.

No Netflix você encontrará a seguinte descrição sobre a série: “Um professor de Filosofia do Ensino Médio causa confusão por onde passa e serve de inspiração para todos os seus alunos, inclusive seu filho homossexual”. Eu diria que é isso também, mas é mais, bem mais! 

Merlí é desses professores que acreditam nos estudantes, que sabe que ser professor só faz sentido se for para e pelos estudantes. Sim, Merlí é um idealista, mas longe do clichê professor certinho sofredor que ronda as histórias de professores idealistas. Ao contrário, ele não faz questão de agradar na sala dos professores, tem uma verdade crua que assusta e irrita um mundo acostumado a aparências hipócritas e está longe de ser politicamente correto. Assim, foge totalmente às regras maniqueístas que insistem em rondar as histórias de ficção. O professor tem a doçura necessária e o sarcasmo ardido de quem sabe incomodar pela prepotência em saber ser o melhor professor, sem negligenciar o seu papel como tal.

Merlí encara seus alunos como pessoas prontas, capazes de refletir e tomar decisões e não como peças de uma engrenagem maior. Merlí é dos professores que fazem os alunos ter tesão. No entanto, como personagem complexa que é, o professor apresenta também suas contradições: o difícil relacionamento com seu filho (e aluno!) homossexual e seu fraco por mulheres, que não o impedem de se envolver com uma professora e, em seguida, com a(s) mãe(s) de seus aluno(s). Spoiler, excusa! 😁

A série apresenta ainda os dramas adolescentes: paixões não correspondidas; o difícil relacionamento entre pais, mães e seus filhos e filhas; sexualidade; drogas; amizade; machismo e liberdade sexual. Tudo isso regado a uma dose de filosofia: em cada capítulo, Merlí apresenta um filósofo para dialogar com os dilemas que vão surgindo. A primeira temporada começou com Aristóteles e “Os peripatéticos” (forma que o professor passa a chamar seus estudantes) e terminou com Nietzsche. Como não amar?

Se nada disso te convenceu, o seriado é ótimo pra fugir do imperialismo da língua inglesa e treinar o catalão... 😉

No Netflix está disponível apenas a primeira temporada, mas a segunda já foi rodada e está confirmada a 3ª temporada! A trilha sonora é um desfrute a parte também! 

#Fica@Dica

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Vocês não gostam de meritocracia - editado



Vocês não gostam de meritocracia de verdade. Meritocracia é só um jeito fácil – e falacioso – que vocês inventaram para justificar desigualdade social e aliviar a culpa cristã.

Se vocês acreditassem mesmo em meritocracia, estaria todo mundo na escola pública. Basta se esforçar, não é mesmo? Curso de inglês, francês, espanhol, mandarim? Não precisa. Esforcemo-nos todos com o que nos é oferecido na escola pública!

Mas não, vocês querem o apartheid educacional. A educação para quem pode pagar e a pública. Aí, quando o estudante de escola pública e/ou negro entra na universidade pelas cotas, vocês ignoram o mérito e partem logo pras adjetivações baratas: ele é vagabundo, folgado, não precisou estudar. Vocês ignoram que, mesmo com as cotas, é preciso estar entre os melhores estudantes para conseguir uma vaga na universidade pública. Cotista não se matricula sem fazer a mesma prova a que todos são submetidos para provar que “merece”, que se esforçou suficientemente para estar ali. O que acontece é que ele é avaliado junto às pessoas que tiveram as mesmas condições de vida/estudo que ele. Mas, né, onde já se viu """tirar""" a vaga de quem "se esforçou" tanto no colégio particular e que, ao invés de trabalhar, fazia aulas de inglês, francês, espanhol e alemão?!?

Vocês acham lindo prefeito empresário, cheio de processos, mas condenam o homem que, depois de 2 mandatos como presidente, sai com 85% de aprovação do seu governo. Foi tudo falcatrua, né? A saída do Brasil do mapa da fome, as novas universidades, pré-sal, energia, água, aumento real do salário mínimo... Quem aplaude esse homem é corrupto. Onde já se viu, homem simples, com 4º ano primário ter feito mais pelo Brasil que qualquer outro presidente? Ter reconhecimento e prêmios de diversas nações. E ainda diz que quer voltar pelo voto democrático?!? Não merece. Que seja feita a santa inquisição! Mesmo sem provas, ele já foi condenado por um juri popular raivoso que segue indiferente às falcatruas de um governo ilegítimo, sem mérito.

Vocês não gostam de meritocracia. Vocês gostam de manter o status quo. Vocês gostam dos ricos ocupando os lugares que sempre ocuparam. De pobres continuando pobres, porque não se esforçam, né?!?, e assim seguem suas vidas de pagadores de dízimos e ofertas até alcançarem o céu, afinal, vocês merecem, não é mesmo?


sexta-feira, 31 de março de 2017

De quando eu conheci a Europa: Portugal


Portugal foi o país em que passei por duas cidades. Já tinha caminhado por Lisboa antes e depois de Cabo Verde e agora era a vez de conhecer um pouquinho, bem pouquinho, de Porto!
Desembarquei em Porto por volta das 10 horas do dia 17 de janeiro. Eu tinha 10 horas pra curtir um pouco da cidade até o meu próximo voo... Guardei as malas no aeroporto, metrô e lá estava eu num centro com ruinhas em que andei meio sem rumo só contemplando.









Porto foi uma grata surpresa de paisagens lindas, mas que preciso voltar para poder contar um pouco mais...

Difícil foi chegar em Lisboa, ou melhor no Hostel de Lisboa. Celular sem bateria e eu com apenas o nome do Hostel. Foram horas - e não é uma hipérbole! - de caminhadas e por um certo momento, de um desespero após caminhar pelo Bairro Alto - que não tem esse nome à toa - por horas com mala e mochila, andando em círculos, ou não, subindo e descendo ladeiras e a certeza, horas depois, de que ficaria perdida ali para sempre e viraria lenda. "tá vendo aquela senhora puxando a mala rasgada? Dizem que chegou aqui ainda jovem, se perdeu e nunca mais saiu daqui. Desde então roda pelo bairro..." Depois de duas horas - e, repito, não é uma hipérbole! - e várias gentilezas pelo caminho, encontrei o Hostel. Parecia milagre! Eu putíssima, mas grata por ter, finalmente chegado. Estava, finalmente, no meu último destino.

No outro dia pela manhã, até tentei sair sozinha, mas desisti daquele bairro, o verdadeiro mundo de Nárnia, não sei se crianças viram reis e rainhas, mas que se corre o risco de ficar ali pra sempre, isso corre!

Juntei-me à turma pra não largar mais. Não sairia de perto do Rafa - nossa Branca de Neve! - nunca mais! Andamos meio com rumo sem rumo num dia de comida boa, risadas de quem sabe que bom mesmo é aproveitar o caminho!


O verdadeiro bacalhau português, com vinho!!! 







Depois desse pôr do sol lindo, regado a uma cerveja vermelha, fomos para o Hostel onde encaramos uma caça aos patos que nos presenteou com tequila para aquecer a noite. Uma noite que deveria ser de vinho e fado, sussa.
Teve caça aos patos!


Porque eu adoro fotos espontâneas



Mas como tequila (e mais uns litros de caipirinha de vodka preta) é uma bebida que cobra caro, não teve fado. A noite rolou mesmo num barzinho cool que começou tocando Daniela mercury, com velinhas na mesa e amendoin free, onde conhecemos um casal de primos brasileiros (ele mora na Alemanha) e depois de umas caipirinhas, estávamos todos em pé curtindo a noite mais maluca da viagem... E era só pra ser um fado com vinho, sussa...


No outro dia era só história - muitas! - risadas e ressaca das bravas. Mas era o último dia em terras estrangeiras. Arrumei forças uterinas e fomos a Cascais onde nos demos o luxo de uma comida indiana das boas! Do mais, um passeio meio devagar, sem pique até mesmo para muitas fotos. Também não teve foto dos pasteizinhos de Belém - que são, de fato, uma delícia! Mas há lembranças, muitas, dessa viagem que me transformou de uma maneira que talvez eu ainda não tenha a noção exata.




Valeu a pena cada segundo. eu não faria nada diferente. Até as subidas e descidas no morro alto, sozinha, de madrugada, são histórias que guardo no ❤ com carinho, alegria e gratidão por ter tido o privilégio de viver.

De Cabo Verde à Europa, foram 3 meses longe de casa, conhecendo gente nova, arriscando conversar numa nova língua, vendo a cada momento coisas pela primeira vez e me encantando, me renovando e tendo a certeza de que eu nunca mais seria a mesma. Deixei um pedacinho de mim em cada lugar por onde passei e levo muito de cada coisa que vi por cada lugar em que estive: Praia, Tarrafal, Lisboa, Paris, Londres, Roma, Barcelona, Porto e Lisboa... foram dias incríveis!
Incríveis no sentido mais original da palavra, porque eu agora olhos para as fotos e parece mentira, mas o coração sabe que foi verdade, e que valeu a pena! ❤

As fotos nas estações de trem/metro ❤


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