Para que serve a utopia?

"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8

domingo, 24 de abril de 2016

Escola sem ideologia. Qual?

Está em discussão na Câmara dos Deputados dois Projetos de Leis que vêm sendo conhecidos popularmente como “Escola sem Ideologia” e “Escola sem partido” de autoria dos deputados federais: Rogério Marinho e Izalci Lucas Ferreira respectivamente, ambos do PSDB. Grosso modo, esses dois projetos trabalham com a ideia de uma possível neutralidade na educação.

A pergunta que não me deixo de fazer, e seria importante que todos fizessem, é: qual ideologia? É mesmo possível a tão requerida neutralidade? Ensinar ou aprender que o Brasil foi descoberto por acaso por navegantes experientes que desejavam ir às Índias é parte de uma educação neutra? Um currículo que privilegia ciências exatas em detrimento de ciências humanas é um currículo neutro?

A resposta, espero que óbvia, é não! Tudo e todos estamos carregados de ideologias. Sim, i-de-o-lo-gias. Este termo que parece assustar, mas que nada mais é que o conjunto de nossas vivências, experiências, práticas sociais, crenças etc., ou seja, a nossa percepção de mundo.

A ideia falaciosa de neutralidade é apenas para maquiar que ainda no século XXI vivemos sob o domínio de ideologias retrógradas como a do racismo que carrega, ainda hoje, o mito da democracia racial e ignora os lamentáveis casos de racismo que acontecem cotidianamente em todas as partes do país; a do machismo, que violenta psíquica e fisicamente mulheres em todo o mundo; a da heteronormatividade, que coloca como patológica ou demoníaca as orientações sexuais que se diferem deste padrão; as ideologias religiosas que legislam no nosso estado laico... Enfim, ideologias muitas que constroem nosso mundo tal como é ou, prefiro pensar, está.

O que me assusta quando vejo tais projetos é que não acredito – e torço para estar totalmente equivocada – que a preocupação se volte a essas ideologias dominantes que causam vítimas cotidianamente. Infelizmente o que temos assistido é a uma criminalização das ideologias que rompem com esse padrão predominante. É chamada de professora ideóloga a que fala sobre feminismo, sobre desigualdade social, que luta por direitos iguais sem distinção de gênero, jamais o professor que faz a piada machista ou homofóbica e que fala de mais de 300 anos de escravidão como algo natural e não como uma ideologia da época (da época?). Então, qual ideologia está se querendo evitar que nossas crianças e adolescentes tenham acesso na escola?

O desconhecimento sobre ideologia chegou a tal ponto que pudemos ver nas últimas manifestações cartazes com “Fora Paulo Freire” levantados por pessoas que talvez nunca o tenham lido, mas o rejeitam porque este é um ideólogo. Sim, Paulo Freire está carregado de ideologia. Assim como também estão: Florestan Fernandes e Karl Marx e, na direção oposta, Hitler e Thomas Malthus, apenas para exemplificar. Assim como também o padre ou pastor; o político em que você votou; a novela e o jornal de notícias que assiste, a vida social que te rodeia estão carregados de ideologia, e isto não é demérito, é apenas um fato.

Uma educação pluralista de qualidade deve prezar para que os estudantes tenham acesso a todos os conhecimentos socialmente construídos, carregados das diferentes ideologias, apenas desta forma é possível falar em liberdade de ideias, porque para odiar ou amar Marx ou Adam Smith, por exemplo, é preciso conhecê-los e estudá-los, do contrário apenas está se repetindo acriticamente ideologias alheias.

Por fim, não há escola sem ideologia, o que os projetos citados desejam é manter o domínio de ideologias convenientes à manutenção da sociedade racista, machista e homofóbica que perpetua há mais de 500 anos por aqui, prevendo punição – que pode chegar a prisão de até 3 anos! – aos professores que “ousarem” dizer que há outro lado na moeda.

Publicado originalmente em: Jornal Novo Contexto em 16/11/2015.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Comemorar o “dia do índio”?

Luciano Ariabo Kezo estuda letras na UFSCAR e escreveu livro que ajuda a ensinar a língua umutina-balatiponé. Fonte: http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2015/04/indigena-diz-que-19-de-abril-nao-existe-estamos-na-historia-todos-os-dias.html


Na próxima terça-feira, 19 de abril, comemoraremos o “Dia do Índio”. “Comemoraremos” parece uma forma sádica de se referir à data, uma vez que o cenário para os verdadeiros donos dessas terras, é desastroso. Aprovada em 1940, a data foi estabelecida para que o dia fosse dedicado ao estudo da situação indígena nas diversas instituições de ensino.

Entretanto, reproduzimos até hoje a história de que o Brasil foi descoberto, e não invadido, pelos portugueses. Conta-se na história oficial que nessas terras vivia um povo selvagem que aguardava para ser catequizado e ter sua questionável alma atestada. Questionável porque foi apenas em 1537 que o Papa Paulo III decidiu que os indígenas possuíam alma, mas uma alma vazia que, portanto, precisava ser preenchida pela verdade divina que vinha do homem branco civilizado. E assim se consolidou, pela razão colonizadora, amparada na fé cristã, o plano de invasão e saque destas terras, o plano que em nome de Deus matou, escravizou e aculturou.

Ao longo desses 500 anos, apesar da vitória na “Independência ou morte”, seguimos pelo mesmo caminho dos colonizadores, matando e quase dizimando a população indígena que, na verdade, é a real família tradicional brasileira. Em 2010 chegamos ao lamentável patamar de apenas 0,26% de indígena na composição do total da população.

Indígenas foram e são assassinados. Na ditadura militar brasileira, o número de pessoas mortas reconhecido oficialmente é de 434, entretanto, ao menos 8,3 mil indígenas foram assassinados em nome do progresso. E segue-se a matança: dezembro de 2015: uma criança indígena foi assassinada no colo da mãe em Santa Catarina; janeiro de 2016: um indígena teve a cabeça esmagada por 15 chutes e pisões em Belo Horizonte; no Mato Grosso do Sul, pistoleiros têm atacado diariamente os povos Guarani e Kaiowá... Quantos desses fatos você ouviu noticiado?

Além desse cenário de constante ataque e desrespeito a essa minoria que, sendo sociológica, tornou-se também numérica, os povos indígenas encontram todos os tipos de resistência para serem aceitos e inseridos na sociedade com suas especificidades e direitos. Predomina por aqui a ideia de que ao lutar por suas terras, atrasam o desenvolvimento do país, que são preguiçosos, e que se não estiverem nus e com cocar na cabeça, não são mais “índios”.

De fato, “índio” não é a expressão mais adequada a se usar porque esta foi uma denominação utilizada pelos portugueses que acreditavam (?) estar na Índia e por muito tempo chamaram as terras invadidas de Índia Ocidental. Assim, ao se depararem com a população indígena, automaticamente denominaram-na “índios”. Contudo, atualmente tem sido mais aceita a expressão “indígena” que significa “originário da terra”, “nativo”.

Para Luciano Arikabo Kezo, do povo Balatiponé, pelo viés identitário, um “indígena” sempre se identificará a partir do seu povo, assim como nós nos identificamos como brasileiros, por exemplo. E são muitos os povos indígenas no Brasil, cada um com estrutura linguística e cultura próprias. Aikanã; Aikewara; Barasana; Chamacoco; Desana; Enawenê-nawê; Guarani; Ingarikó; Jarawara; Kariri; Munduruku; Nadöb; Panará; Tapajó; Tabajara; Waiwai; Xavante; Xerente são apenas alguns deles.

Diante de toda essa diversidade o que faz a escola, além de ensinar que “pra mim fazer” é jeito de índio falar, propagando a ideia preconceituosa e caluniosa do indígena ignorante, quando o português é, na verdade, sua segunda língua.

Cabe ainda que em 2016, no “Dia do Índio”, a escola, como um aluno cansado de ter que escrever a redação sobre as férias, mas precisa cumprir tabela, prepare uma atividade “artística” reproduzindo e reforçando o estereótipo do índio nu, com cocar na cabeça, sem se preocupar em ser, de fato, o local propulsor dos fatos científicos que desvelam toda a diversidade cultural, linguística, como também a situação atual dos povos indígenas, possibilitando uma visão menos turva da realidade?

Algumas escolas avançaram uma casa e, na data, chamam um indígena para conversar com as crianças. Legal, mas quem discute os direitos de todos os povos denominados genericamente de indígenas? Quem discute sobre o agronegócio, sobre as construções de usinas, sobre os ataques de pistoleiros, sobre o racismo, sobre todas as violências que continuam a matança iniciada em 1500, em nome da “ordem e progresso”, que ignora a humanidade de quem sempre foi dono das terras e hoje precisa lutar para, antes de tudo, permanecer vivo nas mesmas?

Vestir cocar e pintar o rosto não cumpre a tarefa educacional de “comemorar o dia do índio”. Se o objetivo for mesmo comemoração, que seja pelos avanços. Comemoremos o primeiro reitor indígena do Brasil na Universidade Federal de Roraima; a indicação do artista indígena do povo Macuxi, Jaider Esbell, ao Prêmio Pipa de Arte Contemporânea; o ingresso de Indígenas nas universidades federais pelas cotas étnico-raciais; o primeiro indígena, Lennon Ferreira Corezomaé do povo Umutima, a ingressar no mestrado da UFSCAR... Que comece a festa!


Publicado também em Jornal Novo Contexto

domingo, 3 de abril de 2016

Apesar de você

Neste final de semana fui convidada a participar de um novo grupo de whats app. Era o grupo de formandos de 1998 da escola na qual terminei o Ensino Fundamental. No pouco tempo entre o contato inicial e ser inserida no grupo me vi perdida nas centenas de mensagens. Notícias de pessoas que o tempo havia me feito esquecer. Notícias tristes. Notícias alegres. Casamentos. Filhos. Trabalhos. Mudanças. Morte...
Em meio a tantas mensagens, muitas recordações com um tom de saudosismo que eu não conseguia sentir. Senti saber o falecimento de uma colega. Do mais, ficava pensando onde eu estava enquanto aquelas alegrias todas foram compartilhadas. Nessa busca deparei-me com o passado que muitas vezes eu fiz questão de não lembrar: eu pude ver novamente aquela menina de óculos, cabelos crespos compridos sempre presos e gordinha que sempre fora alvo das “piadas e brincadeiras” seguida das risadas dos colegas, nem sempre tão amigos assim.
Deparei-me com o bullying em uma época que o assunto não era discutido como agora. Deparei-me com a vergonha em ser como eu era. Deparei-me com aquela dificuldade em aceitar meu corpo e meu cabelo, ainda sem saber que o que diziam sobre o meu cabelo era racismo.  
Bullying e racismo são duas violências, muitas vezes ignoradas, secundarizadas e até mesmo negadas, que trazem consequências das mais desastrosas à vida de uma criança ou adolescente. Apesar disso, nem sempre têm suas especificidades compreendidas socialmente ou, ainda pior, por professores que deveriam ser agentes do combate a estas violências.
Do senso comum de que “antes a gente brincava e ninguém falava que era bullying”, como se o fato do não falar fizesse com que uma violência não existisse, à ideia de que qualquer violência cometida no ambiente escolar seja bullying, o termo vem se desgastando sem que seja compreendido em sua essência, o que dificulta a busca por ações para eliminá-lo do ambiente escolar.
Um exemplo que costumo usar para explicar o tema são as conhecidas histórias da Turma da Mônica. Muita gente ilustra os xingamentos dos personagens Cebolinha e Cascão como bullying com a personagem Mônica, no entanto, não é o que acontece nesta relação porque a Mônica não se intimida e sempre responde com a violência física. O que acontece nas histórias são dois tipos de violências: verbal e física que como violências devem sem enfrentadas e repudiadas.
O próprio Maurício de Souza na Edição 45 da revista Turma da Mônica Jovem trouxe o tema à tona. Nele a Mônica se expressa afirmando que não sofreu bullying. Ora, o que é bullying então? É uma violência, verbal e/ou física, repetitiva e implicada numa relação de poder em que uma pessoa ou um grupo intimida outra, geralmente, mais vulnerável que não responde as agressões. A vítima, intimidada, na maioria das vezes, tem medo de denunciar e procurar ajuda, o que torna os agressores livres para agirem na sua violência covarde.
Outra forma de violência que acompanha muitas crianças e adolescentes durante a vida escolar é o racismo, violência enquadrada como crime desde 1989. Há diversas pesquisas que apontam o quanto o ambiente escolar é hostil aos estudantes negros. Falta representatividade nos professores, na gestão, nos cartazes, nos brinquedos – bonecas negras ainda não são uma realidade em todas as escolas. O material didático, ainda hoje, repetidamente, apresenta o negro com características negativas, além de apresentar o povo negro apenas pelo viés da escravidão, ignorando a história e cultura de impérios africanos antes do ataque europeu ao continente, apesar de já haver lei que estabeleça a obrigatoriedade de tais conhecimentos no currículo.
Neste cenário, a criança ou adolescente negra se percebe dentro de um sistema que não dialoga com sua ancestralidade, que não valoriza sua história e cultura para além do samba e da feijoada, e ainda está exposta a ter sua identidade subjugada na “piada” racista com o aspecto do seu cabelo e com seus traços físicos.
Hoje, 20 anos depois do Ensino Fundamental, com as feridas cicatrizadas por um tempo que, sinto em dizer, não me deixou saudade, entendo meus caminhos traçados, minhas buscas e meu idealismo dentro da educação. Recupero as lembranças com a crítica necessária para seguir meu caminho.
Caminho não menos difícil que aqueles de 20 anos atrás, porém, com mais determinação. Determinação na minha essência, no meu cabelo cacheado. Determinação na busca pela educação que seja significativa e acolhedora a todas as crianças e adolescentes – negras, pobres, brancas, indígenas, gordas, magras, homossexuais, transexuais, heterossexuais...

Sim, mais uma das minhas utopias, mas que sigo caminhando com alegria e amor que transcendo e declaro sem medo, principalmente em tempos de ódios declarados sem pudor e com orgulho. Amor pela luta que me faz acreditar que amanhã vai ser outro dia. 

Publicada originalmente em: Jornal Novo Contexto    

quarta-feira, 23 de março de 2016

Grelo duro, sin sinhô!

A expressão “grelo duro” utilizada pelo ex presidente Lula em conversa telefônica com Paulo Vannucchi, divulgada pelas mídias ainda tem causado debates e críticas.
A última crítica a que tive acesso foi feita pela deputada Mara Gabrilli do PSDB de São Paulo que em nota repudia a fala considerando-a misógina e desrespeitosa. Engraçado que ela repudia o “grelo duro”, mas não se incomoda em usar “denegrir” por diversas vezes, expressão racista rechaçada pelo povo negro por significar tornar preto. E por que tornar preto é ruim?
Discordo veemente da deputada, mas entendo o seu papel em ser oposição até mesmo em temas que poderiam lhe ser empoderador.
Sim, empoderador. “Grelo duro” como já foi explicado por diversas feministas trata-se de um regionalismo nordestino que quer dizer “mulher porreta”, ou seja, denota uma mulher forte, pronta para o combate, o que faz ainda mais sentido em terras extremamente machista. Penso em mulheres naquelas terras de coronéis que precisam mesmo serem mulheres do grelo duro para enfrentar toda a opressão e violência.
Onde está a misoginia quando Lula chama por mulheres fortes para serem protagonistas de um processo de enfrentamento, seja lá o lado em que você se encontra nesta guerra que se tornou o cenário político brasileiro.
Ora, não teria o mesmo efeito de indignação se Lula tivesse usado “chama os homens pra colocar o pau na mesa!” para defender o governo porque o falocentrismo sempre esteve presente em nossa sociedade com ares de normalidade, a não ser no movimento feminista, sempre descredibilizado por muitas das pessoas que saem agora em defesa das mulheres contra a “fala machista do ex presidente”, conforme esbravejam.
Não acho que Lula seja feminista. De forma alguma. Considero a conversa com Dilma em que ele diz que “ela achou que fosse um presente de Deus” em relação aos policiais federais na casa de Clara Ant machista sim. Mas infelizmente um machismo recorrente que entre amigos e amigas reproduzimos em tom de piada. Cultura essa que precisa ser mesmo mudada, eliminada.
Entretanto, não vi tantos novos feministas quando da acusação de agressão à mulher de Aécio, por exemplo. Mas não quero recorrer ao velho e válido argumento dos dois pesos e duas medidas, porque a situação exige mesmo uma reflexão sobre nossos preconceitos diários.
Para mim, como mulher que enfrenta o machismo diariamente, a misoginia está em quem não quer entender as mulheres de “grelo duro” como o lado forte, em quem não admite que dessa vez não sejam os homens que estejam sendo chamados a pôr o pau na mesa, mas as mulheres de grelo duro! O preconceito está ainda em ignorar e ressignificar contra o feminismo um termo utilizado na região do Brasil que sofre com os achismos de quem advoga em prol de separatismo e/ou acredita que “lá pra cima” é terra de gente preguiçosa.
Considero de extrema má fé, ignorância ou mau caratismo mesmo, gente que sempre acusou as feministas, usarem agora uma fala dita entre amigos para tentar destruir ainda mais a imagem de um líder popular como Lula. De repente tornamo-nos todos paladinos da moral, do feminismo e da idoneidade.
Espero toda essa gritaria contra o fiu fiu diário na rua. Em respeito ao meu corpo, independente do jeito que eu decida apresentá-lo. Na aceitação do meu não como verdade a ser respeitada. No respeito pelo meu lugar de fala, de mulher de grelo duro sim, na luta e no deleite da vida. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

EDUCAÇÃO PARA A BARBÁRIE

Meu filho meu maior orgulho... Gui se manifestando em sua aula de artes... Vamos para as ruas domingo, vamos lutar por um país digno para nossas crianças” texto seguido de #forapt #foradilma #vempraruabrasil. Abaixo o desenho, que escolho não reproduzir, de uma criança com os escritos: “Fora bandida; PT fora; morre ‘Diuma’; fora Lula; fora PT; morre Lula”.
Não sei descrever ao certo os sentimentos que me tomam quando vejo essas barbáries explicitadas em tom de politização e sabedoria. Se a barbárie é possível de ser vista exibida com orgulho desde as primeiras manifestações em março do ano passado com cartazes que lamentam não terem morridos todos em 1964, por exemplo, é impossível não se chocar ao ver uma criança sendo exaltada pela reprodução de um discurso de ódio.
Qualquer escola minimamente comprometida com uma educação para uma cidadania crítica e com reflexão social não deixaria passar em silêncio uma “expressão artística” dessas sem um debate sobre política, sobre ódio e sobre direitos humanos.
O nosso discurso adulto torna-se cada vez mais caótico. Perdido. Dizemos às crianças que não pode brigar com o amiguinho, que não pode xingar, que não pode bater (quero acreditar que essa ainda é a máxima utilizada), mas achamos um absurdo uma lei que nos impeça de dar “um tapinha”. Confundimos educação com coerção. Respeito com medo e, por fim, política com paixão. Confusões perigosas essas.
Eliane Brum, colunista que sigo com grande admiração, escreveu nesta semana que a política no Brasil deu lugar à fé em detrimento da razão, tanto para os odiadores de Dilma, Lula e PT, quanto para os adoradores de Lula. Acontece que, na política, mesmo para os crentes, é preciso ser ateu, escreveu ela.
Chegamos ao ponto em que o óbvio tem que ser dito. Não importa se você discorda da linha política de Dilma, Lula, Aécio ou Alckmin. Nada, absolutamente nada, justifica desejar a morte de tais figuras. Além de isso demonstrar o quão raso está o debate político, alerta também para o ódio exaltado com orgulho que, nessa linha, segue para um fascismo que vem tomando espaço disfarçado de combate à corrupção. Qual o nome para o desejo de morte do outro pela sua opção política ou religiosa? Sobre o que foi o holocausto?
Incitar o ódio de crianças deveria ser crime hediondo. Coisa que desejamos quando vemos crianças sendo usadas pelos radicais islâmicos, não?
Como acreditar que o desejo real de quem exalta discurso de ódio quer mesmo “um país digno para nossas crianças”? Digno para quem? Que dignidade pode haver quando o debate político dá lugar ao ódio e à barbárie escrita e proferida em tom de orgulho, dirigida ao outro que pensa diferente?
Em um país que ainda não aceita Direitos Humanos e que apesar de uma maioria cristã, defende o olho por olho, parece excesso de utopia acreditar que a educação sozinha será redentora desse cenário apocalíptico em que nos afundamos.
Buscava acreditar que apesar das ideologias diferentes, no fim todos queríamos todos a mesma coisa: um país melhor; um futuro melhor. Não consigo acreditar nisso quando o ódio toma o lugar do debate racional e coopta as crianças em discursos que não lhe deveriam ser próprios.  

Apesar disso, aceitar que o caminho para uma democracia forte e saudável ainda está a perder de vista entre nós, deve reforçar essa nossa utopia que não é mobilizante, mas serve exatamente para nos fazer caminhar.

sexta-feira, 4 de março de 2016

O som das panelas

Muito me indigna a indignação seletiva sobre os casos de corrupção, a indignação que vira notícia em horário nobre pela mesma mídia [corrupta!] que a causou e ignora o fato da corrupção ser um mal fincado neste país desde a sua invasão pelos europeus.
Enquanto batem panelas que sempre estiveram cheias de bons alimentos, como crianças mimadas que não querem ouvir o que o outro tem a dizer, ignoram as panelas vazias nas escolas públicas estaduais de São Paulo em função de um esquema, já denunciado, de corrupção no contrato com empresas fornecedoras de merenda, mas bem pouco explorado pela sempre tão indignada grande mídia.
Em um país no qual muitas crianças vão à escola primeiramente pela (até então) garantia de receber uma alimentação saudável e nutritiva, esse crime torna-se ainda muito mais odioso. Leandro Karnal, historiador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), expressou no jornal do canal Cultura sua indignação sobre o assunto: “de todos os tipos de canalha, canalha que rouba de aluno pobre de escola pública, este realmente, eu que sou contra a pena de morte, é o único momento em que a minha decisão fica abalada. Realmente é um crime hediondo você lesar crianças e escola. […] Quem está roubando a merenda das crianças de São Paulo?”
Vale lembrar que só faz sentido falar em meritocracia, quando todos têm o mesmo ponto de partida. Quando a diferença já começa por “quem come” e “quem não come”, a meritocracia nada mais é que um discurso ideológico para perpetuar privilégios.
Para além da necessidade de muitas crianças de ter ao menos uma refeição adequada ao dia, soma-se o direito de todas as crianças de receber na escola pública uma alimentação rica e balanceada nutricionalmente.
Qualquer profissional da educação minimamente preparado sabe que ter os aspectos fisiológicos supridos – respiração, alimentação, sono… – é a base essencial para que se possa aprender e, portanto, “roubar comida da boca de crianças” é um ato que impede diretamente a aprendizagem delas. Dentro da luta por educação de qualidade, deve estar atrelada a luta por uma merenda rica nutricionalmente e saborosa, capaz de garantir os recursos mínimos para promover a aprendizagem de todas as crianças.
Assim, a “merenda” é um dos fatos pelo qual eu acredito que valha a pena lutar pela garantia do direito a uma escola pública gratuita e de qualidade. Ao conceber a educação como uma ação muito mais ampla que o mero ensino técnico de habilidades cognitivas, entendo a merenda como um ato educativo à medida que oferece diversidade de alimentos e possibilita o desenvolvimento de hábitos saudáveis de alimentação. Uma merenda nutritiva e saborosa pode ainda evitar o consumo de biscoitos, salgadinhos e refrigerantes que, além de muito calóricos, são pobres em valores nutricionais. Além disso, a alimentação em grupo estimula as crianças a comerem alimentos que, muitas vezes, sozinhas em casa, elas não se permitem experimentar. Pode ainda virar objeto de estudos nas aulas de ciências, história, português, matemática, geografia em projetos interdisciplinares que valoriza uma educação em diálogo com a vida real, e enriquece significativamente a aprendizagem dos estudantes.
No entanto, falta merenda e as escolas se organizam como podem. Já vi até relato com foto de escola servindo farelo de bolo com água.
Apesar do descaso com a educação pública no Estado de São Paulo a que [pouco] assistimos nos noticiários – reorganização forçada, fechamento de salas, falta de merenda… – segue-se batendo panela exclusivamente contra o executivo federal, enquanto isso, nas panelas das escolas públicas estaduais paulistas, silêncio e poeira.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Cuidar e Confiar

“AS LUZES QUE DESCOBRIRAM AS LIBERDADES INVENTARAM TAMBÉM AS DISCIPLINAS”
MICHEL FOUCAULT EM VIGIAR E PUNIR
Outro dia presenciei a conversa de mães preocupadas porque suas filhas de sete anos, no 2º ano do ensino fundamental, agora ficavam no pátio e sem a professora durante o recreio (muita gente usa intervalo, mas adoro “recreio”, porque não devia ser só um intervalo, além de lanche, devia ter muita recreação, criança correndo, gritando, pulando, enfim, sendo criança!).
Para mim, o problema estava exatamente no ano anterior em que soube que essas mesmas crianças comiam dentro da sala de aula, tutoreadas o tempo todo pela professora. Que tempos!
Observei um pouco catatônica aquela conversa. Pensava em como nós que crescemos estudando em escola pública e sempre pudemos correr livres nos recreios, conseguíamos achar alguma estranheza nas crianças terem 20 minutos de liberdade para exercer a tão apregoada autonomia… E se quiserem me convencer de que eram outros tempos, só posso pensar que eram mesmo diferentes porque àquela época a nossa brincadeira era mesmo correr, pular e gritar: esconde-esconde, pega-pega, queimada… Hoje muitas crianças parecem hipnotizadas atrás de uma tela, sem nem ao menos saber o que são essas brincadeiras.
Não. Não sou uma saudosista que endossa o velho discurso “no meu tempo era melhor”. Era bom sim, era ótimo, mas tenho certeza que as crianças de hoje – as privilegiadas, lógico – acham muito bom ter acesso a tablet, computador e vídeo games. No entanto, reclamamos que as crianças não brincam mais como antigamente, mas quem está a ensiná-las?
Embora brincar, de forma muito geral, seja inerente ao ser humano, existem brincadeiras que precisam ser ensinadas. O quanto desprendemos do nosso tempo para ensinar e brincar com as crianças as brincadeiras das quais falamos com tanto saudosismo?
Ao invés disso, preocupamo-nos de tal maneira com a integridade física das crianças que focamos numa vigilância e advertências constantes: não corra que você vai cair. Você vai se machucar. Não ande desse jeito. Não se suje. Não pule.
Vigiamos as crianças e não permitimos que elas esfolem os joelhos, como aconteceu conosco tantas vezes. Vigiamos as crianças pela babá eletrônica. Pela câmera 24 horas do prédio. Pela câmera 24 horas da escola que coloca em pauta na reunião com as famílias sobre instalar ou não uma câmera nos banheiros!!!
Em nome da segurança, muitos dirão. Segurança de quem? Ou ainda, sensação de segurança de quem? Uma câmera, de fato, protege do que? Qual o medo que temos? O que vigiamos tanto em nossas crianças? Por que o susto ao saber que crianças de 7 anos já lancham sozinhas num pátio escolar?
Quem ao se recordar da infância, não se lembra dos segredos que tinha com os amigos e se sentia um super poderoso, ou uma heroína com isso? (Muitas vezes, nossas famílias até sabiam, mas pela ausência de câmeras, achávamos que não!).
O que tanto queremos ver das nossas crianças? E o que fazemos com o que vemos delas? Estamos ficando tão acostumados às telas que preferimos assistir as nossas crianças ao invés de olhá-las nos olhos e ter uma boa conversa para vê-las de verdade?
Exigimos confiança, sabedoria e autonomia das pequenas e dos pequenos, mas o quanto disso depositamos e exercitamos no desenvolvimento delas e deles?
Cuidado não é sinônimo de vigilância. Cuidado é sinônimo de diálogo saudável respeitando os limites de entendimento da criança. Cuidado é permitir que hajam descobertas próprias. É permitir também que o erro aconteça. Cuidado é acolher com acalanto a decepção, mas sabê-la ser parte do crescimento, da vida. Cuidado é ser confiável, honrar palavras, educar também com atitudes e confiar.
Cuidar e confiar são parte da educação para que se possibilite de fato a autonomia necessária para o desenvolvimento de cidadãos quem rompam com a velha cultura do “vigiar e punir”.

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