Para que serve a utopia?

"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Tô aproveitando cada segundo...


Teve feira gastronômica da 5ª edição do Dia Internacional das Migrações e tinha barraquinha do Brasil, Cuba, Cabo-Verde, Senegal... Acabei não comendo nada porque já tinha almoçado, mas rolou uma garfada na comida senegalesa. Era um arroz bem temperado com frango. Bom! 




Cuba
Senegal


Depois do almoço senegalês, de um sorvete no platô que já me viciou e compras de tecidos e lembrancinhas para quem ficou no Brasil, seguimos - os cearenses e eu - numa caminhada rumo à praia de Quebra Canela... A Embaixada do Brasil nos surpreendeu com essa pintura que eu ainda estou tentando entender quem e porquê...

O mar sempre me renova e já sofro em pensar a voltar a viver em terras secas em que não é possível terminar a tarde com um banho de mar que está a dez minutos de carro...

Domingo conheci um pouco do interior da Ilha e a primeira parada foi na Cruz de Picos que tem essa vista que uma simples foto não é capaz de traduzir... Depois seguimos para uma olaria para conhecer o trabalho de mulheres fantásticas que há gerações produzem cerâmica - desde a retirada da argila, carregando sacos de até 10kg na cabeça, até a queima das peças... Mulheres!!!





Depois fomos para uma festa de Natal para crianças que nos presentearam com a apresentação das "batucadeirinhas".


 E se tem uma coisa que o povo aqui sabe fazer bem é festa, é dança, é música... Entra todo mundo na roda: menino, menina, mulher, idosa. Não há idade. Há alegria e uma energia que renova a alma!


 Estar com crianças é sempre muito bom, sinto-me renovada ao encontrar-me com o que há de mais honesto no mundo. Crianças com olhares de esperança e de quem esperamos um mundo melhor. que brincam e sorriem com tão pouco. Que nos lembram que a alegria está em coisas tão simples como brincar de morto/vivo e comer pipoca. Renovo-me! E ainda vem o sol finalizar a tarde com o seu show particular...


Uma shawarma com bata frita depois e terminamos o domingo no show da linda Mayra Andrade!!! Que cantora!!! E por um motivo dos mais nobres: 1 ano da campanha da Organização das Nações Unidas (ONU) "Livres e Iguais", que visa promover a igualdade para lésbicas, gays, bissexuais e transgénero (LGBT). Aliás, por aqui sempre está se discutindo a questão de gênero, igualdade e violência baseada em gênero. E apesar do machismo latente, há por outro lado uma preocupação social em colocar o assunto na mídia sem as distorções de quem não é capaz de compreender a humanidade pra além de pênis e vagina... 



A semana foi de dias mais cinzas e vento. Muito vento. O que me permitiu um breve mergulho no mar apenas na quarta-feira. Na sexta o jeito foi passear um pouco pelo Mercado Sucupira e Platô... 



Rolou um Poema Gigante na rua Pedonal - uma rua que não circula carros - e onde tem o melhor sorvete da cidade, aquele que já me viciou e, como estou aproveitando cada segundo, peguei logo dois!!!



Sábado foi dia de um bate papo com a Associação de Pais e Mestre da Escola Secundária de Salineiro sobre machismo e feminismo... O incômodo dos homens devia ser objeto de estudo. De me olharem a feio a se retirarem da sala... Onde já se viu uma mulher falando que precisamos lavar as próprias cuecas, né, não, macharada?!?! 😒
Mas o que me interessa são as possibilidade abertas com as mulheres que precisam se saber livres, que precisam saber poderem ser o que quiserem!!! Yes, we can do it!!!! 




Depois um passeio pela linda Cidade Velha!!! Como já contei, a primeira cidade do país que foi "descoberto" em 1460...

Pelourinho


Eu, Cláudia (CLE/Unicamp), Profa. Gertrudes (Univ. Jean Piaget) e seu esposo, Alcides.

Rua das Bananas - Cidade Velha


Convento São Francisco
Resiliência... 



À noite, acompanhada do meu fiel companheiro, Revlon (que não aparece na foto), fui ao jantar de confraternização de professores e funcionários da Universidade Jean Piaget. Revlon foi presenteado com bons e carnudos ossos!!!

Cláudia, Wlodzimierz Szymaniak - reitor da Universidade Jean Piaget, eu, Professora Getrudes

Pra encerrar, a "Noite Branca". Uma espécie de Virada Cultural com leituras de poemas na Casa Cultural e palcos com shows no centro da cidade. O nome é porque a tradição é que todos se vistam de branco nesta noite. É uma tradição da Cidade de Praia. No fim da noite regada a poesias, fui presenteada com um livro "Tratado Poético da Cobo-Verdianidade" de Silvino Lopes Évora.


E já se foram 2 meses... Mal deu tempo de eu me dar conta que estou do outro lado do Atlântico, mas já sinto o aperto no coração pelas despedidas que estão por vir para que eu rume a uma nova viagem...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Linhas soltas...




Já tenho mais de mil fotos de Cabo Verde. E cada uma conta uma história. Desde o estranhamento com construções que são mais cinzas que no Brasil - não há tijolos de barro por aqui e vê-se pouquíssima telhas, geralmente nas construções mais antigas -, até as paisagens que me encantam, passando por momento de alegria com pessoas que eu há 2 meses nem sequer eu sabia que existiam e que agora já fazem parte da minha vida e deixarão saudades no fim disso tudo.



E lá fomos nós, esse trio brasileiro, a Tarrafal, cidade praiana no norte da ilha. Cerveja, porção de peixe (em que se pede por pedaço e cada pedaço é 30 escudos), mar, sol e soneca... Tudo que faz a vida valer a pena e não custa assim tão caro. Basta ter o mar por perto.






Não sei ao certo mais o que contar sobre Tarrafal. Parece-me que há coisas que só são possíveis de sentir. E foi um misto de emoções. Senti-me feliz pelo privilégio desse intercâmbio, de poder conhecer tanta coisa nova que aos poucos já vão se fazendo cotidiana. Senti-me saudosa das viagem que faço no Brasil no mesmo pique: praia e cervejinha. Senti um desejo enorme de poder dividir isso com tanta gente que amo e que sei que amaria isso aqui também: minha mãe, irmã, cunhado e sobrinhas. Minhas amigas queridas de Barão Geraldo: Marina e Angel, com quem conversaria horas sobre nossas percepções acadêmicas sobre a colonização, sobre o machismo e sobre como a cultura resiste entre trancos e barrancos, que aqui são muitos. Pensei na Jordana e na Clara, em como discordariam em alguma coisa entre si e terminariam falando alguma bobagem que nos faria gargalhar alto. Coração apertou de saudade. Senti vontade de me aconchegar num colo, ainda que imaginário na minha casinha aqui, que já se tornara também lar.

Domingo, segunda e terça, foram dias difíceis. Uma tristeza saudosa de quem sabia que apenas ir embora não curaria... E no meio disso tudo uma tese a fazer, porque nem tudo são passeios, mares, caipirinhas e cerveja...

Usar Boaventura de Sousa Santos como estruturante da tese seria de um disparato que eu não estava me dando conta. E que bom foi receber a Cláudia, pesquisadora do CLE (Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp) que me apontou caminhos possíveis... Porque não dá pra falar de epistemicídio e criticar o eurocentrismo usando como base um homem branco, europeu, português, né?!? Eu criticaria o que estaria a reproduzir... Como não tenho problema em ser essa metamorfose ambulante sou agora seguidora do grupo "Modernidade/Colonialidade" criado pelo Arturo Escobar...

"“a colonialidade é constitutiva da modernidade, e não derivada” (Walter Mignolo). A, modernidade e colonialidade são as duas faces da mesma moeda. Graças à colonialidade, a Europa pode produzir as ciências humanas como modelo único, universal e objetivo na produção de conhecimentos, além de deserdar todas as epistemologias da periferia do ocidente."

O ânimo voltara e lembrei-me de agradecer por tudo. Do atum fresco comprado no mercado plateau, aos cachorros que não me deixam sozinha pelo campus, passando lógico, pela alegria de poder ir à praia quando quiser... 







terça-feira, 29 de novembro de 2016

Às vezes tem uma vaca no caminho...



Intercâmbio é descoberta e nem todas são necessariamente boas. Mas talvez importantes pra gente entender a vida, se entender na vida... Já descobri que carma não te larga, não importa quantos quilômetros você viaje, por exemplo. Devem mesmo ter coisas de outras vidas que precisamos aprender a resolver...

Descobri que as vezes tem uma vaca no caminho. Literalmente. E é gostoso de ver, olhar a calma dela ali, só comendo e ruminando... Às vezes eu queria ser uma vaca, mas desisto logo ao lembrar de um churrasco, coisa que não vejo há mais de um mês já...

Em frente à universidade Jean Piaget


Eu me considero uma pessoa agnóstica, acho que tudo é possível, assim como a negativa é igualmente verdadeira, mas fico pensando que se existe mesmo um Deus, ele deve estar um pouco chateado comigo, ou sendo sádico testando minha paciência e capacidade de resiliência, aí repenso meus dramas e penso também que se Deus existe ele tem coisa bem mais séria e bem menos #classemédiasofre pra resolver e sigo na dúvida... negando nada, afirmando menos. 

Mas tô achando que os chineses vão dominar o mundo. O ilhéu mais fofo daqui será transformado num grande cassino e hotel. E as obras já começaram. Os chineses também têm acordo pra pescar em mares caboverdianos e, segundo me contaram isso já impacta a vida de alguns pescadores aqui... 
A prainha e a vista pro ilhéu... 

Logo à frente, tapumes que escondem o mar e obras...

Tá vendo como uma imagem depende do ponto de vista! Não é tão bonito visto dessa forma, né?

Ao menos uma vez por semana eu dou uma saída por aqui pra ver gente, respirar novos ares e na última semana  fui conhecer o Memorial de Amílcar Cabral que foi um líder da Libertação de Guiné Bissau e Cabo Verde em luta armada contra Portugal. Ele tinha um quê de comunista, gente! Como não amar, não é mesmo?!? 
Memorial à Amílcar Cabral - Praia, Cabo Verde
"Perguntar-nos-ão se o colonialismo português não teve uma ação positiva na África. A justiça é sempre relativa. Para os africanos, que durante cinco séculos se opuseram à dominação colonial portuguesa, o colonialismo português é o inferno; e onde reina o mal, não há lugar para o bem". Amílcar Cabral.

Depois fui conhecer a Biblioteca Nacional e passeei um tempo pela sala infanto juvenil. 



Depois segui pro "mercadão" – o Sucupira – que tem esse nome por causa de uma novela brasileira. Lá eu me sinto no mundo de Nárnia, eu entro por uma das entradas e jamais consegui sair pela mesma. Aliás eu levo um tempo até conseguir sair dele. Vende-se de tudo por lá: celulares, relógios, tecidos, roupas de todos os tipos, sapatos, produtos de beleza, souvenirs, frutas, legumes, peixes, temperos, panelas, faz cabelo, faz a unha... Só não tem mesmo um mapa pra se localizar... E então lá estava eu com uma sacola com um vestidinho africano💚, banana, tomates, cebolas, pão e dois filés de atum fresco. 


Em frente ao mercado Sucupira

Em frente ao mercado Sucupira

No último final de semana fez um sol bacana, pra compensar a falta de internet em casa. Nada de filme, série ou coisa do tipo pra distrair a solidão. O jeito foi passar mais tempo na praia. Como por aqui o transporte, apesar de barato é difícil principalmente aos FDS, arrisquei pedir carona, e não é que deu certo?!? Foi ótimo e uma economia de 40 escudos! Que logo mais eu doei ao me sentir meio intimidada por dois rapazes que me pediram um dinheiro... Ok, gentileza gera gentileza. isso foi no domingo, dia que decidi me bronzear com uma sonequinha na praia. Depois mergulho com peixinhos. Revigorante!






No sábado (pra que ordem cronológica, né, gente?!?), conheci a ilha da Ilha de Santiago (aquela que vai virar cassino e hotel de luxo dos chineses) e como boa estabanada consegui mais um machucado, dessa vez um corte (superficial, mas o suficiente pra eu fazer meu drama queen) no pé ao em enroscar numa planta... Mas valeu a pena, foi bom, na volta teve cerveja de pressão a 100 escudos cada, ótimas conversas, praia até anoitecer, shawarma, batata frita e chocolate... 

nas ruínas do ilhéu




Os pescadores que nos levaram ao ilhéu por 1500 escudos

Ricardo e eu nos aventurando em mar aberto (SQN!) num barquinho que nem dava pra brincar de "se a canoa não virar..." 

Vale um parênteses pra contar da Shawarma que é uma massinha fina tipo pão sírio com carne, vinagrete e bata frita, tudo dentro e enroladinho. Pode parecer estranho, mas é uma delícia!!! Virou rotina já: praia e depois shawarma com + uma porção de batatas fritas!

Mas como deve ter alguma força maior tentando me testar, não bastou o FDS sem internet e sábado de manhã sem água na torneira, agora meu celular de menos de menos de 8 meses decidiu que não quer mais acender! O “ecrã” que depois eu descobri que é o display pifou. Ou seja, galerê, se você é meu amigo, amiga, ex, família, pretendente a (ponha aqui um substantivo legal!), colega, quer me dar um emprego ano que vem, ou quer me contatar, saiba que estou sem celular, mas se a internet não me abandonar novamente, ainda atendo no e-mail e facebook de sempre.
Beijo, me escreve! 😉

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Reset

Não sei ao certo como começou. Alguns dizem que foi já em junho de 2013 quando o gigante acordou meio desavisado revoltado com tudo sem entender que na verdade era sim pelos 20 centavos. Um gigante mimado que começou a perceber que pelo seu tamanho – não pela qualidade – poderia esbravejar e conseguir com manha o que quisesse. Sua birra resultou num golpe consolidado em 31 de agosto.


Daí por diante soltamos os freios e deixamos a locomotiva seguir ladeira a baixo, com muita gente feliz porque não gostava da maquinista anterior. Dane-se que o trem vai se espatifar no precipício com todo mundo dentro. O importante é que trocamos a maquinista.

 
Jantares milionários são servidos para conciliar acordos de austeridade (?!?!?!?!). Qualquer incoerência na frase não é erro da escritora. Reformas de sucateamento do ensino médio são propostas com apoio de quem prefere Alexandre Frota à Paulo Freire. Delações que afirmavam propina à Dilma viram doações legítimas quando do “equívoco” do delator que na verdade nomeou cheque de 1 milhão a Temer... Grupo invade plenário da câmera pedindo intervenção militar e bandeira do Japão é confundida com bandeira comunista... Comemora-se o espetáculo midiático de uma prisão, e o desespero de uma filha ao ver seu pai ser preso...

Reset. Reiniciar. Não está dando certo. E enquanto o meteoro não vem, seguimos. Cegos, alienados em frente a telas brilhantes que nos divertem com a tragédia humana estampada em 1080 bits. “Bandido bom é bandido morto, bandido bom é bandido ridicularizado pela mídia”. Rimos. Perdemos a empatia e nos orgulhamos do nosso patriotismo cristão ao ver a justiça ser traduzida em espetacularização midiática. Aplaudimos. “Quem não tem pecado que atire a primeira pedra”. Esquecemos.

Um dia em saturno...


Lembro-me perfeitamente de como foi há 1 mês... Uma ansiedade que não cabia em mim, misturada com uma calma que eu não sabia que teria para um momento desses. Almoço em família com estrogonofe (um dos meus pratos prediletos!!!) e batata ao forno com molho branco e muito queijo... Comi menos que deveria pela ansiedade...
Fui me despedindo do Brasil ao olhar cada coisa pela estrada, a caminho do aeroporto. As risadas no aeroporto pelas patacoadas no elevador. O lanche no Bob’s com milk shake de Ovomaltine e o melhor de tudo, minha família ali comigo. A despedida e minha mãe ensaiando um choro que pedi pra ñ deixar rolar ou eu não teria coragem de embarcar. Embarquei. 


Voei e cá estou. Bem. Feliz e com saudades. Saudade das boas de quem sabe que vai encontrar muito amor e um porto seguro na volta, mas por enquanto a vida é de descobertas.
Foi 1 mês e parece que faz 1 ano e ao mesmo tempo só uma semana. Paradoxos do tempo. Já conheci tanta gente, algumas que ainda não consegui conciliar fisionomia e nome e outras que me alegram o coração toda vez que encontro.
Mas intercâmbio não são só rosas. Todos me diziam que seriam o melhor da vida, que é sensacional. Esqueceram de me dizer que é difícil. Que é difícil não saber onde encontrar comida. Que é difícil ficar doente e se ver sozinha num país onde não se sabe onde fica uma farmácia. Que a saudade bate e a gente se sente sozinha. Que a comida pode não agradar....
Senti-me culpada de me ver em alguns momentos contando as semanas pra ir embora... Eu mesma não entendia, não estava desgostando, mas me via contando as semanas... Ter amigas por perto, mesmo de longe é essencial nesses momentos, e foi aí que a Marina me acalmou o coração, dizendo que isso é muito natural, que as pessoas apenas não dizem, porque no fim, como tenho sempre dito, o que fica do intercâmbio é o copo metade cheio. Foi então que comecei a decifrar o grande lance do intercâmbio: não é que não haja perrengues. Há. Muitos. O lance está em se perceber capaz de se virar em todos eles e seguir firme. É aprender a desfrutar da vida da forma como deveríamos fazer cotidianamente - devorando cada paisagem com olhos curiosos, saboreando cada comida como se fosse única, - porque de fato é. No fim, as pessoas têm razão. Intercâmbio é mesmo tudo isso que dizem: é sensacional, uma experiência ímpar! E é descoberta - de mundo e de si mesma.
Eu já descobri que não quero viver longe da minha família que não seja possível eu passar um final de semana ao mês com eles pelo menos. Quero ver minhas sobrinhas crescerem e participar dessa fase da vida delas. Quero estar perto da minha mãe e da minha irmã porque descobri que apesar de tão diferentes somos tão fortes e necessárias umas às outras. Mas descobri também que sou capaz de viver sozinha, o que eu, na verdade, já desconfiava, mas fui além, descobri que posso beber sozinha num bar, ir sozinha à praia, e que tudo isso pode ser ótimo. Descobri que o sotaque cearense é dos mais gostosos e realmente me encanta. Descobri que sou capaz de encarar uma aula de improviso como lousa e giz e ter uma ótima desenvoltura (modéstia à parte, lóóóóóógicoooo).  



Algumas coisas se reforçam: não tolero fundamentalismos de qualquer tipo, e tenho acreditado cada vez mais que o fundamentalismo religioso é dos piores males da humanidade. A diversidade de fato me encanta! E sigo considerando justa toda forma de amor. Toda. 💗💙💚💛💜

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Há milhas e milhas distante...


Por aqui as coisas estão bem. Tem hora que até bate uma tristezinha, saudades e me sinto sozinha sem amigas mulheres, não é tão simples e não são só alegrias viver num país longe e diferente do que se está acostumada, mas abrir o coração para novas descobertas faz tudo parecer menos assustador... E tem sido uma aventura incrível!

O feriado de finados aqui é dia 1º de novembro e a professora Gertrudes me convidou para ir passear com ela e sua família. Fomos a Rui Vaz que é uma cidadezinha de montanhas, comemos milho assado e cozido e pastel de milho que é tradição aqui neste feriado e depois fomos a uma praia em Praia mesmo (aqui se vc pegar um táxi e pedir para ir à praia, vc chega no centro, não ao mar, praia aqui é praia mar) que eu ainda não conhecia – a praia mar São Francisco. Todos são sempre mto simpáticos e gentis de forma que me sinto muito a vontade para ser eu mesma. Foi um dia bem gostoso!
Montanhas em Ruiz Vaz - visão panorâmica

Casinha em Rui Vaz

Praia São Franciso

Praia São franciso - visão panorâmica


Na quinta-feira conheci a cidade-velha, que na verdade chama-se Ribeira Grande de Santiago. Foi a primeira cidade do país, onde chegaram os portugueses em 1460, tornando-se Ribeira Grande em 1462. Vi a apresentação das batucadeiras, uma manifestação cultural de mulheres que tocam, cantam e dançam. É sensacional!!!! A cidade é uma gracinha e lembra um pouquinho Paraty (RJ/ Brasil) que eu tanto amo. Ok, que caí no conto mais brasileiro de todos: ganhei uma lembrancinha porque brasileira é sempre amiga, mas depois fui “forçada” a comprar um imã de geladeira que nem queria... E lá se foram 300 escudos...

Cidade Velha
Cidade Velha

A última sexta-feira foi um desses dias em que bate um desânimo e a princípio pensei em hibernar, deitei, cochilei, pensei em ver um filme, mas lembrei que o copo pode estar metade cheio ao invés de metade vazio. Biquini, táxi e praia. Ah, o mar!!! Resolvi dar um mergulho, dessa vez com meus óculos de natação e vi peixes lindos, grandes... Em meio a isso topei com um rapaz sozinho e decidi puxar papo: Vc é cabo verdiano? Com a certeza de que eu ouviria um “I’m germany”, mas eis que ele me responde: Não, eu sou brasileiro! Foram músicas ao meu ouvido. Engatamos num papo que só terminou quase meia noite depois de dividir um táxi para voltar para casa...

Essa nova amizade fez com o que o FDS fosse bem legal com cia para vários programas, praia no sábado a tarde, lanche a noite, compras no mercado... Almoço no domingo seguido de visita ao navio logos hope (a maior livraria flutuante do mundo que tem uma pegada bem cristã com Jesus negro e bíblias e mais bíblias... Bíblia sexista, sim, bíblia para meninas e bíblia para meninos, pasme!!! Encerramos o domingo com chopinhos (cerveja de pressão aqui!) e praia no início da noite! 






A faculdade é onde eu sinto mais dificuldade. É tudo bem diferente e ainda me sinto perdida as vezes, sem saber ao certo qual meu lugar aqui. Como doutoranda não sei enquadrada como uma estudante, mas por outro lado não me sinto uma professora... Por outro lado, consegui reunir umas meninas para falar de feminismo e elas estão muito animadas!!! Já rolou um primeiro encontro no último sábado com data marcada para um novo encontro no próximo sábado. A ideia é formar coletivo feminista da Uni Piaget! :) (O reitor é q talvez ñ goste mto...) Mas tenho procurado ter cuidado para que seja um movimento delas, com a cara delas, e dentro das especificidades delas! Mas como o machismo ñ se diferencia muito acabamos todas tendo as mesmas necessidades... 

Bom, tem também essa coisa da tese, né... Pois é, eu tenho um doutorado a fazer... Tenho observado tudo e me surpreendido com muita coisa. Embora aqui seja um país africano, o fato de não estar no continente traz umas particularidades como, por exemplo, alguns cabo-verdianos não se considerarem africanos!!!! A colonização portuguesa aqui é fortíssima, o cristianismo dominou as religiões, não há manifestação de práticas religiosas de origem africana, há fundamentalismo religioso de origem evangélica e uma visão as vezes pouco crítica em relação à escravidão... :(

Por aqui eles gostam muito do Brasil e das nossas novelas, mas acabam acreditando que o Brasil é o que vêem nas novelas e nos programas do tipo balanço geralda Record, que explora o que há de pior e da pior forma e, portanto, acabam acreditando que o Brasil é mais violento do que é de fato... 

Eu tenho tido um pouco de dificuldade com a comida, logo eu que não tenho frescuras com comida, que sempre amei o bandejão da unicamp (saudades, bandeco!)... rs... Tenho comido menos e sinto mta vontade de tomar coca-cola!!! Coisa que quase nunca tomava no Brasil, aqui tomo quase td dia... =/ A carne vermelha é muito cara e não gostei da aparência no supermercado (a rede do melhor supermercado aqui é menor que o dia% do Brasil), então desde que cheguei que não como um bom bife (acho q sou capaz de morder uma vaca se encontrar no caminho, o que é mais comum do q pode parecer)... Em contrapartida já comi muito atum de lata (que é melhor que o nosso!!!) e também fresco! Há tb um chouriço que é parecido com a nossa linguiça calabresa, mas bem, bem mais forte o que já me fez enjoar tb... Os pães são deliciosos e uma das poucas coisas mais baratas que no Brasil - 10 escudos cada!!!

Agora estou me recuperando de uma virose cabo-verdiana que me deixou bem mal ontem.... Devo ter perdido uns 5 kg entre vômitos e diarreia... Mas isso me fez ir em busca de carne e legumes para uma boa sopinha... Nham! 

E até agora é isso, tudo isso!!! Parece que foi ontem que tava indo pra Guarulhos sem saber o que encontraria pelo caminho, mas na verdade já foi há três semanas!!! 

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