E me disseram que tenho medo de mudar de opinião. Sim eu tenho. Não pelo medo de pensar diferente do que penso hoje. Porque não sou uma “meio intelectual meio de esquerda” que acabou de ingressar num curso de Humanas e está encantada com as... teorias marxistas. Não. Entrei na Universidade há quase dez anos. Marx, inclusive, demorou um bom tempo para fazer sentido, porque não é tão simples e superficial como os memes do facebook. Fiz graduação, especialização, mestrado. Quanto mais conheço das teorias e do mundo é que as ideias da esquerda me convencem como verdade para um mundo melhor, no qual reconheço minhas responsabilidades individuais tendo em vista bens coletivos. Então, não é que eu tenha medo de mudar de opinião por um idealismo juvenil impensado, insensato; meu medo é o de mudar e me tornar mais uma no mundo pensando igual a maioria apenas pelo comodismo do intelectualismo de sofá. Ver mais
Para que serve a utopia?
"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8
sábado, 4 de maio de 2013
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Um tapinha não dói
Um tapinha não dói. Bata nas crianças para educá-las, e
depois jogue-as na cadeia ao cometerem um ato de violência, porque isto não
pode.
“Filho, mas não pode bater no coleguinha, se você fizer de
novo, você vai apanhar!”
Ora, eduquemos aos tapas então! Vamos dar “tapinhas” no
chefe que te humilha diariamente com suas piadinhas infames. Ah não pode? Ele
tem poder. Então bata na sua empregada, agora que ela resolveu exigir seus
direitos, depois dessa maluquice de PEC das domésticas. Não pode! Dá processo?
Ah, mas bater na criança, menor que você, em formação moral e indefesa, pode?
Então me explica direito esse tipo de educação aí, porque
olha só, eu já estudei muito sobre isso e não encontrei um teórico sequer que
defendesse a violência para educar. Sim, “só um tapinha” é violência. Vamos lá,
eu te explico: Se você brigar com sua esposa ou esposo, você acha coerente que
se encerre o problema com um “tapinha”? (Se você responder sim, e coloca isso
em prática, corre o risco de ser enquadrado na Lei Maria da Penha, vale
lembrar!) Se respondeu não (e quero acreditar que essa tenha sido a sua
resposta!), então por que você acha que faz sentido educar uma criança que você
colocou no mundo com um tapa??? Porque você pensa que entre adultos o tapa não
pode (bingo!), mas com a criança, menor e mais indefesa, pode? Qual o sentido
nisso? Por que você acha que é por meio da dor, da vergonha e da punição
violenta que se educa? Ah sim, é mais fácil, porque a criança chora, fica com
medo e o assunto se encerra rápido. Mas acredite, você não educou. Você, dentre
muitas coisas, pode ter constrangido, criado medo, insegurança, vergonha,
raiva, mas não educação e responsabilidade pelos atos.
Defender uma educação de qualidade não passa, nem de longe,
por uma educação autoritária, punitiva. Passa por exigir uma educação crítica,
que ajude e pensar o mundo e não a obedecer ao status quo.
É interessante notar como as pessoas têm se demonstrado
interessadas em discutir as diversas polêmicas ultimamente e penso ser muito
válido que a população se pronuncie, opine. Mas é muito perigoso o senso comum
que beira as discussões e como são ignorados os profissionais que dedicam anos
de sua vida a estudar tais assuntos.
“Pois eu apanhei muito e me tornei um cidadão de bem.” (conceito que venho questionando ultimamente e
falei um pouco no post anterior).
Se você é mesmo um cidadão de bem, há mais possibilidades de
ter sido o amor, não a dor, que lhe fez assim.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
"Queria ver se fosse com você..." Pois foi, meu caro, foi comigo!
E vinha pensando se a minha omissão para o tão batido "Queria ver se fosse com você”, argumento que tenta justificar punições cada vez mais severas, cada vez mais cedo e está em 100% das polêmicas que andam dando muito trabalho para os criadores de memes de facebook, não estava indo longe demais. Ao ler a entrevista da jornalista Luiza Pastor, estuprada por um menor e contra a redução da maioridade penal, pensei ser a hora e escrever a minha história também.
O desabafo da jornalista mostra a lucidez de alguém capaz de pensar para além do seu umbiguinho, no entanto, os comentários de leitores demonstram ainda, além da violência embutida nos “homens de bem”, ou nos não bandidos, como se pronunciam, o machismo nosso de cada dia, nem tão implícito assim. “Pois então ela gostou.” Se por um lado, reafirmo a minha fé na humanidade ao encontrar com seres humanos capazes de pensar para além da sua dor, por outro, a péssima mania de acompanhar os comentários, reforçam também a dúvida nesta, angustiante paradoxo este.
16 de julho de 2005. Praia Grande/SP. Não fui estuprada. Não sei o que é passar por uma violência dessas, mas tive meu pai assassinado em uma viagem de férias típica da classe média. Meu pai, pedreiro e professor de matemática da rede estadual de ensino, estava lá apenas para subir ainda mais os muros da casa de praia de um amigo, que andava mais preocupado com a segurança do lugar. Enquanto isso, minha mãe, eu e alguns amigos, estávamos para curtir a praia.
Era sábado de manhã, o muro já estava erguido e seria dia de praia e churrasco no fim do dia. Os planos mudaram drasticamente. Estávamos em casa, muitos dormindo ainda. Fui acordada sendo sacudida por um homem armado. Fomos encaminhados para um quartinho e depois de estarmos todos lá, meu pai, junto dos outros homens da casa (eram 3), reagiu. Presas no quarto, ouvíamos a briga, quebra-quebra e vários tiros. Até que os assaltantes, talvez ainda adolescentes, fugiram e meu pai estava baleado.
A notícia da sua morte veio no hospital por um nada sensível médico...
[...]
Uma história dessas pode acontecer com qualquer um, menos com você. Você vê na TV diariamente, sabe de um caso com um primo de um conhecido, mas com você não, não pode. É isso que se passa na cabeça até que não seja mais possível fugir da realidade estampada na tragédia anunciada à sua frente.
Eu era uma estudante de pedagogia do 2º ano e as teorias sociológicas já faziam algum sentido para mim e então eu queria entender como um ser humano era capaz de matar outro ser humano... Essa pergunta martelou na minha cabeça ainda mais forte a partir daquele momento. Foi alguns anos depois que uma pergunta me trouxe a clareza em qual lado eu estava: vingança ou justiça social, afinal? “Mirian, você nunca teve vontade de matar quem matou o seu pai?” Dei-me conta que não, não mesmo. Não consigo pensar em deitar e conseguir dormir pensando ter sido capaz de tirar a vida de alguém. Na época torci para que fossem presos sim, não por vingança, mas porque sabia a dor que a situação causara e não desejava aquilo para mais ninguém, era isso. Nem por isso desejei ao menos um sistema penitenciário cruel que fizessem com que ali saíssem com mais ódio de tudo e "piores" do que entraram. Nunca soube se foram encontrados e presos, mas eu finalmente tinha claro para mim de que lado estava.
Confesso que não é fácil estar desse lado, porque o mundo te cobra um desejo por vingança, e pensar diferente, coloca em xeque a sensibilidade sobre a sua própria dor. É preciso uma clareza que nem sempre é possível manter. Mas confesso que com os debates sobre a redução da maioridade penal tenho ficado ainda mais forte nas minhas convicções. Ao ler os argumentos das pessoas contras, além dos mimimis “Queria ver se fosse com você”, há os que desejam barbáries para as pessoas que pensam diferente. Juro que não entendo por que essas pessoas se acham melhores que os “bandidos” que querem enjaular ou pior, a pena de morte, uma vez que ao encontrarem com pessoas que discordam de suas opiniões, claramente esbravejam e desejam crimes tão ou, geralmente, mais horrendos dos que os já cometidos!!
Tenho medo da violência que todos têm, mas tenho ainda mais medo desse ódio impensado, camuflado pelos "cidadãos de bem", muitas vezes, usando o nome de Deus e da família... Ah esses cristãos que se esquecem tão facilmente que Jesus deu a outra face. Intriga-me entender o conceito de bondade utilizado nos dias de hoje... Gosto da reflexão que Alex Castro nos proporciona “O mal é a falta de atenção”
“No nosso dia a dia, não temos muitas oportunidades práticas de ativamente não-estuprar, não-roubar, não-torturar, não-cometer-genocídio, etc.
Não-matar não é uma daquelas decisões conscientes que tomo todos os dias e das quais posso (ou não) me orgulhar – assim como, digamos, ir malhar ou não repetir o prato são duas decisões que tomo todos os dias a um custo pessoal considerável.
Ou seja, não posso me considerar bom somente porque nunca matei, roubei, mutilei, joguei judeus no forno ou comprei escravos em Luanda.
O mal é o desejo de vingança sangrenta. O mal é o descaso pelos mais pobres. O mal é a falta de sensibilidade. O mal é a crença numa meritocracia inexistente causadora de tanta violência.
Hoje sigo com mais medo que antes, com mais tristeza que antes, com mais saudade que antes, mas também com mais vontade de um mundo melhor que antes, com mais vontade de brigar e esbravejar por justiça social, por educação pública de qualidade, por políticas de equidade!
Não posso, não devo e não quero como cidadã e educadora pensar que a prisão é a única saída para a violência. A prisão é a saída quando tudo na nossa sociedade já deu errado. Há casos patológicos, e para esses, tratamento adequado. O que digo sempre e insisto em repetir é que a grave patologia que assola o Brasil é a da desigualdade social que permite poucos com tanto e tantos com tão pouco. Enquanto isso for uma realidade pouco questionada, construamos prisões e mais prisões e continuemos a viver na mentira de que elas nos protegerão da violência, enjaulados também nós nos condomínios e carros blindados...
quinta-feira, 21 de março de 2013
Lógica perversa
Há
uma lógica perversa nos "bons" que acreditam que presos não deveriam
ter acesso a Direitos Humanos, direitos estes que visam apenas garantir a
dignidade de toda e qualquer pessoa.
Oras,
acreditam esses que "bandidos" não merecem qualquer acesso à
dignidade por terem infringido, de alguma forma, a integridade dos
"bons"; no entanto, ignoram que no Brasil o crime é uma patologia
social, alimentada pela exclusão social de muitos, e na manutenção de uma falsa
crença de meritocracia, inexistente neste país.
“Sabem por que o Brasil não é um país meritocrático? Porque ninguém faz o caminho inverso. Sim, é possível que um favelado brilhante se torne presidente de empresa. Mas e as antas bem-nascidas?” (1)
Nega-se
veemente o fato de que a desigualdade social, a negação dos direitos de grande
parcela da população, coloca em xeque a possibilidade de um status social
desejado por muitos e alcançado por poucos. Neste cenário, a melhor opção para
muitos é o crime. Quando a melhor opção é a pior das opções,
Diante disso, esbravejam os ”bonzinhos”
que os criminosos não têm o direito (e realmente, direito, não têm) de negar às
pessoas de “bem” uma vida harmoniosa e feliz e, portanto, merecem a morte, ou
ainda, os mais bonzinhos, defendem apenas a penalidade baseada no” Olho por
olho, dente por dente”. Pensam e acreditam, fielmente, que se pauta na punição
extrema a verdadeira justiça. No entanto, ignoram todas as negações a que essas
pessoas passaram.
Mora aí a lógica perversa do “lado do
bem”. Para estes, as vítimas da violação dos seus direitos devem apenas lutar
contra tudo e todos, sem o direito de se revoltar. Entretanto, as vítimas dos
criminosos que a sociedade cria, estes sim, têm todo o direito de se revoltar e
desejar por uma justiça sangrenta em nome de uma paz que também é exclusividade
dos socialmente aceitos.
Não, eu não defendo falta de punição,
defendo apenas uma sociedade com mais justiça social, com distribuição de
renda, direitos sociais estendidos a todos e todas. Defendo, embasada nos
Direitos Humanas, que se garanta a dignidade humana de toda e qualquer pessoa.
Quando alcançarmos isso, aí sim, poderemos falar em verdadeiros bandidos, que
hoje, estão, em sua maioria, assumindo cargos importantes deste país. Eleitos
pelos bons que marginalizam e criminalizam os que não acessam seus privilégios.
[1]
Brasil, meritocracia de
todos! (Você é um privilegiado? 4) Disponível em: http://interney.net/blogs/lll/2009/10/02/brasil_meritocracia_de_todos_voce_e_um_privilegiado_4/
[2] Soldados do tráfico.
Disponível em: http://www.educacional.com.br/reportagens/criancasdobrasil/infancia_trafico_soldados.asp
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Morro um pouquinho por dia...
É. Eu morri também em Santa Maria... Chocada,
indignada, abismada, abalada, triste...
Mas venho morrendo há tempos e continuo morrendo
um pouquinho por dia porque a morte ali é a morte cotidiana de jovens que nem
sequer puderam sonhar em estar em uma Universidade e morrem todo dia. Morrem na
miséria, morrem na ação truculenta da polícia autorizada a desconfiar
principalmente de negros e pardos, morrem no estigma social que os marginaliza
e os condena a morrerem a cada dia.
Morro um pouquinho por dia quando ouço no noticiário
os breves 2 minutos apresentando a morte suspeita, quero dizer, de sete
suspeitos, e ouço ao fundo um respiro de alívio acompanhado de um “Menos sete!”
dito com muita satisfação.
Morro um pouquinho por dia porque vidas humanas têm
valores diferentes na mídia e sociedade brasileiras.
Morro um pouquinho por dia porque a mídia
brasileira faz da tragédia humana um espetáculo armado, atravessando a dor dos familiares,
amigos, conhecidos...
Morro um pouquinho por dia porque continuam as
filas nos hospitais, onde morrem todos os dias crianças, idosos, mulheres
grávidas, recém-nascidos... Onde padecem com suas dores doentes terminais sem
uma visita, sem um sinal de esperança, sem exército de salvação ou ajuda
voluntária.
Morri em Santa Maria. Mas sei que, infelizmente,
vou continuar a morrer um pouquinho por dia...
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
7 dias para o fim do mundo
Então é natal. Então eu sou mestra. E 2012 passou quase que, num
piscar de olhos, E entre o fechar e abrir das pálpebras, quanta coisa!
Conheci uma Ilha, fiz 28. Viagem longa de ônibus, pé inchado e carnaval
na cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. Viagem de ônibus. Ônibus
quebrado. Ônibus pra longe, nunca mais. Avião sempre! Adoro avião.
Deus segundo Spinozza.
Docência, paixão. Aprendi, dancei, beijei, só que não tanto quanto gostaria.
Novos amigos, parceria, delícias da vida! Velhos amigos, presentes da vida!
Férias. Búzios! Cidade encantadora e o importante é sempre zelar
pela segurança! Fui ver com meus próprios olhos que o Rio de Janeiro continua
lindo!!!
Mestrado. Defesa. Nem nos meus melhores sonhos poderia ter sido tão bom.
Eu sou boa no que faço, sim! Professora Mestra Mírian, prazer!
De orientanda, a orientadora. Quanta responsabilidade! Aprendizado.
Ética valores e cidadania na Escola. Professora da USP, sim. Mais que status, conforto
pro coração. Há mais gente querendo uma educação diferente. Não estou sozinha.
Ufaaa!!!
Projeto Madrinha. A Carol vai casar!!! Chá de cozinha. Meninas da
Pedago juntas novamente. Praia, chuva e churros. Felicidade.
Namorado, só que não. Curtição. Muita. Cerveja, vodka e coxinhas. “Duas,
por favor, com catupiry!” Pão de queijo. Bolo de chocolate e brigadeiro.
Regime. Bicicleta e natação, de leve. Projeto réveillon na praia, o último réveillon
solteiras. Amém.
Ousadia. Ousadiasss. O mundo vai acabar mesmo. Eu sei que não, mas
vai quê...
Férias, só que não. EVC. Orientação. Correção. Revisão. Um pouquinho
de estresse X y.
Otimismo. 2013 promete.
Projeto Doutorado a vista...
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
"Você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui...
E há 25 dias da defesa da minha Dissertação de Mestrado publico, para quem tiver interesse, a minha história acadêmica e pessoal - Memorial Descritivo no mundo acadêmico. A história de como foi chegar até aqui... Como ao longo da minha vida essa história se construiu e hoje faz parte do que sou como pessoa e profissional.
Contar
a própria história depois que se perde a espontaneidade da infância é tarefa
difícil. O esforço nas lignhas a seguir será para apresentar um pouco das minha trajetória profissional, dos meus projetos e das
realizações, sem deixar de lado o sentido humano, a pessoa que há por trás de
cada realização.
Costumo me descrever nas redes sociais com
uma única frase: “Tenho alma de artista,
sou um gênio sonhador e romântica[1]”.
Mas apresentando-me por um lado profissional e mais objetivo, usaria apenas
duas palavras: Pedagoga, idealista. No entanto, são duas palavras que carregam
muitas histórias e é isso que contarei a seguir. A história de uma jovem ituana
que, aos 20 anos, saiu da pequena cidade provinciana para cursar Pedagogia na
Unicamp, ainda sem nem imaginar tudo o que estava para ver e viver.
A
|
história desta Dissertação
de Mestrado inicia-se muito antes do meu ingresso no Programa de Pós-Graduação
da Faculdade de Educação da Unicamp. Ainda que na época eu nem desconfiasse,
essa história inicia-se em 2005, quando comecei a atuar como estagiária na
Comissão de Ensino de Graduação em Medicina. Mas o caminho até chegar à Unicamp
tem muitas histórias que merecem ser contadas, pois fazem parte da pessoa que sou
hoje.
Nasci em 1984 e apenas no ano de 1990 comecei
a vida escolar quando, com seis anos, iniciei, com muito choro, minha
trajetória escolar na Escola Municipal de Educação Infantil Prof. Mário Macedo.
Concluído o que se chamava na época 3ª fase do pré, fui para a tão desejada
“escola grande”, na qual eu teria minha irmã mais velha, Lilian, para
compartilhar os medos de estar longe de casa. Em 1991 iniciei a primeira série
do ensino fundamental na Escola Estadual de 1º e 2º graus Regente Feijó, onde
aprendi a ler e escrever as primeiras palavras e a fazer as primeiras contas
com a “Tia Regina”, professora querida das 1ª e 2ª séries. Permaneci nessa
escola até a 3ª série quando mudei, com muita lamentação, para o Centro
Educacional SESI de Itu, onde concluí o Ensino Fundamental em 1998.
No ano de 1999 iniciei o Ensino Médio no
Colégio Guimarães Rosa (atualmente César Lattes), colégio particular que
utilizava o material apostilado da rede Integral. O colégio na época era apenas
focado no vestibular, como se não existisse nenhuma outra possibilidade após o
ensino médio. Apesar da crítica, o sistema ajudou-me a focar na meta de cursar
uma Universidade pública, ainda que eu não soubesse o por quê dessas
“imposições”. Mesmo com esse desejo, foi apenas em 2001, já no terceiro ano do
ensino médio, que realmente me dediquei aos estudos no intuito de encarar o
temido vestibular. O objetivo na época
era o curso de Artes Cênicas. Foi nesse ano também que comecei a fazer cursos
de teatro.
Apesar de ter passado para a segunda fase, não
fui aprovada. E o teste de aptidão mostrou que eu precisaria de mais dedicação
se desejasse mesmo seguir essa carreira. Um ano de cursinho, mais dedicação no
teatro, e no fim de 2002 eu estava novamente prestando a prova da Unicamp para
o curso de Artes Cênicas. Mais uma vez cheguei até a segunda fase, mas mais uma
vez, não deu.
Lidar com a decepção nunca é fácil, e dessa
vez, em especial, foi bastante difícil. Era 2003 e eu não estava na
Universidade como muitos dos meus amigos, eu estava trabalhando em uma empresa,
cinco dias por semana, quase nove horas por dia. O que mantinha meu entusiasmo
na época eram o curso de inglês e os ensaios no grupo de teatro.
A rotina de uma empresa me dava cada dia mais
a certeza de que esse não era o tipo de trabalho o qual eu desejava me dedicar
e, portanto, perto das inscrições para o vestibular Unicamp 2004, repensei
minha vida, os meus desejos e lembrei-me da época em que eu pensava no curso de
Pedagogia e, sem grandes reflexões, confesso, inscrevi-me, mais uma vez, para fazer,
mais uma vez a temida prova, mas dessa vez para o curso de Pedagogia.
Com as apostilas do cursinho do ano anterior,
tentava rever um pouco das matérias nos horários livres e aos finais de semana
e foi assim que cheguei até a segunda fase. Provas feitas, restava a
expectativa em aguardar, mais uma vez, pelo resultado. Tamanha era a ansiedade
ao esperar, pelo terceiro ano consecutivo, por isso. E como demorou a chegar
esse dia. Lembro-me perfeitamente: estava no trabalho, era 04 de fevereiro de
2004, pouco mais de 16 horas, quando saiu a tão aguardada lista com os
aprovados no vestibular da Unicamp. No meio de tantos nomes, dessa vez, o meu
também estava lá. Eu finalmente havia conseguido! Pude dar adeus à vida em um
emprego de assistente administrativo, que nada tinha a ver comigo, e finalmente
seguir a vida universitária que eu tanto havia desejado nos últimos três anos.
Março de 2004 foi o início de tudo. A Unicamp
era um mundo estranho. Siglas, caminhos confusos, pessoas estranhas... Um novo
universo a desvendar. Foi já nas primeiras semanas, durante a calourada, que
fiz algumas das amigas com as quais dividi as risadas, as lágrimas, as dificuldades,
as festas, e as tantas coisas da vida universitária. Carol, Clíssia e Gabi, amizedes
que, apesar das distâncias mantemos até hoje.
No final de 2004 comecei a trabalhar como
bolsista SAE[2]
na Escola Municipal de Educação Infantil Maria Célia Pereira que, na época,
estava localizada dentro do campus da Unicamp. Ao final do ano surgiu a
oportunidade de ser “efetivada” como estagiária[3] o que exigia que eu
mudasse o curso para o período noturno. E assim o fiz. Ótima experiência, mas por
outro lado eu deixava de lado algumas das vivências universitárias que eu considerava
importante para a minha formação.
Assim, surgiu na Comissão de Ensino de
Graduação do Curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp um
processo seletivo para um estágio junto à assessora pedagógica e decidi me
inscrever. Chegando ao final do processo, lembro-me até hoje do telefonema da
Professora Angélica e dos acertos para a vaga. Eu havia conseguido! Na época eu
não tinha uma ideia clara do que faria. Mas poderia voltar a estudar com a
minha turma do período vespertino e ter uma nova experiência na área
pedagógica. Encerrava assim o primeiro semestre de 2005: despedida da EMEI,
expectativa para iniciar um novo estágio no segundo semestre.
Por uma estupidez da vida, ou, o que acredito
mais, estupidez de uma sociedade com desigualdades sociais colossais, nas
férias de julho, em uma viagem rápida para a Praia Grande perco meu pai para a
violência em um assalto num sábado de manhã. O recomeço agora seria outro.
Aprender a conviver com um medo mais latente e aprender a lidar com uma saudade
que não teria fim nunca mais. As coisas eram mais fáceis estando em Campinas,
confesso.
Em setembro inicio efetivamente as atividades
na FCM[4]. No início era apenas uma
maneira de ajudar a custear os gastos da vida universitária em Barão Geraldo.
Com o tempo o interesse pela temática Educação médica foi crescendo. O primeiro
grande ponto dessa história foi a minha participação no 44º COBEM[5] em Gramado no ano de 2006,
quando apresentei o trabalho “Avaliação docente: indicativos que podem
influenciar na relação professor-aluno”. Além da apresentação do trabalho, a
exposição a tantas palestras, fóruns, mesas redondas e oficinas fez crescer
ainda mais o interesse pela temática.
Mesmo feliz com o curso de Pedagogia, não
abandonei alguns projetos relacionados ao teatro. Foi em 2006 que cursei três
disciplinas no Instituto de Artes Cênicas e fiz também um curso livre de teatro
no espaço Semente de Barão Geraldo, com direito a apresentação de peça no final
do ano. Uma conquista pessoal.
Foi em 2006 que me envolvi também com a
Comissão de formatura e assim, ampliei o círculo de amizades. Ser da comissão
trouxe muitos desafios, mas trouxe também amigas, Marcela e Nádia, que junto
àquelas do início do curso são mais do que colegas de faculdade, são amigas da
vida.
Em 2007 inicia a nostalgia antecipada pelo
último ano da faculdade. Foi um ano vivido intensamente e que parece ter
passado em pouco tempo. No segundo semestre apresentei, no 45º Congresso
Brasileiro de Educação Médica, o trabalho “Habilidades docentes e a relação
professor-aluno na Educação Médica” que era também parte da minha monografia de
Trabalho de Conclusão de Curso, orientada pela Assessora Pedagógica do Núcleo
de Avaliação e Pesquisa em Educação médica da FCM, Dra. Silvia M. R. R. Passeri.
No dia 1º de Dezembro aconteceu o Baile de
Formatura e depois dele iniciaram todas as despedidas: do apartamento dividido
com as amigas; do estágio; da rotina com as amigas. Parecia uma vida vivida em
quatro anos, e como era difícil dizer adeus para tudo isso.
Em 2008, consegui um contrato, financiado
pelo Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde-Pró-Saúde,
para orientação pedagógica na Faculdade de Medicina da PUC-Campinas. Os
primeiros passos por lá não foram fáceis, mas foram de grandes lições e
produções. Foram dois contratos neste ano e um aprendizado para toda a vida.
No intuito de dar continuidade aos estudos,
já no primeiro semestre, procurei na Faculdade de Educação da Unicamp por
disciplinas que me aproximassem do tema que eu tinha interesse em estudar e me deixassem
um pouco mais próxima da vida universitária novamente. Foi quando encontrei a
disciplina “Filosofia e Teoria do Currículo da Educação Superior” que vinha ao
encontro dos meus interesses. O projeto de cursar o mestrado começou
efetivamente ao cursar a disciplina em 2008, momento em que tive o prazer de
conhecer a professora Elisabete Pereira que tão pronta e carinhosamente me
autorizou a frequentar as aulas como aluna ouvinte.
Esse curso foi um divisor de águas em minha
vida acadêmica. A Teoria da Educação Geral trouxe fundamentação a muitas das
minhas indagações sobre a formação profissional que eu percebia não responder
às necessidades sociais, mas que, até então, eu não sabia como articular em um
projeto. Foi a partir de então que consegui desenvolver um projeto de pesquisa.
A decepção foi saber que o GEPES[6], grupo coordenado pela
professora Elisabete, no qual eu desejava ingressar como mestranda, não abriria
vagas para novos mestrandos no processo seletivo para o ano letivo de 2009.
Pensei que essa seria uma oportunidade para
conhecer novos grupos e, portanto, procurei conhecer melhor o PES[7]. Meu projeto, neste
momento, tinha como objetivo analisar os elementos
significativos durante a graduação do estudante de medicina que possibilita a
sua formação e seu desenvolvimento como médico. Eu procurava entender de forma
específica qual a motivação em tornar-se médicos dos estudantes; as influências
dessa escolha; as principais dificuldades durante o curso; as expectativas
diante da profissão; a ideia de “ser médico” entre ingressantes e estudantes do
internato. O projeto foi aprovado, fui aprovada também na prova escrita,
chegando até a entrevista, mas não fui selecionada.
A frustração foi grande. Muito. Um medo do
futuro que se evidencia quando as coisas não saem como planejadas, principalmente
quando se deseja tanto uma coisa. Mas depois de ter dado a tristeza o tempo que
ela merecia, era hora de olhar para o futuro novamente.
Ano novo, vida nova, emprego novo. Comecei a
ser professora polivalente de um 4º ano do Ensino Fundamental de uma Escola
Particular. A experiência era gratificante, mas o incômodo com a inconsistência
pedagógica fazia com que eu vivesse um conflito constante. Eu queria mais.
Voltei a estudar. Por indicação das
professoras Elisabeth Mercuri e Soely Polydoro na entrevista do processo
seletivo para o mestrado no ano anterior, procurei conhecer melhor o CEDESS[8] da Unifesp. As inscrições para
o processo seletivo para o Curso de Especialização em Educação em Saúde estavam
abertas e decidi que era hora de arriscar novamente. Dessa vez tudo deu certo.
Em maio de 2009 iniciei o curso nutrida por novas expectativas!
O curso trouxe alegrias e decepções. Mas o
saldo final é indiscutivelmente positivo. Fiz amizades que me enriqueceram como
pessoa; conheci uma nova realidade acadêmica, ampliei os estudos na área de
Educação em Saúde e ainda adquiri mais confiança para participar novamente do
processo seletivo para o mestrado no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de
Educação da Unicamp.
No segundo semestre de 2009 fui chamada para
o terceiro contrato na PUC-Campinas, trabalho que conciliei com a docência no
Ensino Fundamental e com os estudos na pós-graduação. Os passos lá a essas
alturas já estavam bem mais fáceis e prazerosos, e o resultado dos trabalhos
realizados durante todo o período foram dois resumos enviados, aprovados e
apresentados no 47º Congresso Brasileiro de Educação Médica. Um apresentado
pela Profa. Maria Alice A. Garcia – “Potencialidades e fragilidades nas
Avaliações do Curso”, e outro apresentado por mim – “Análise do Teste de
Progresso: 2001 a 2008”.
Junto a isso estava em andamento o processo
seletivo para o mestrado e desta vez eu concorria à vaga para mestranda no GEPES.
Após toda a ansiedade de passar por um processo de quase seis meses que inclui avaliação
do projeto, prova escrita e entrevista, veio a recompensa! No dia 17 de
dezembro de 2009 eu estava, finalmente, aprovada.
Após um réveillon em Paraty cheio de
histórias para contar, inicio 2010 com a vida renovada e decidida a dedicar-me
exclusivamente ao mestrado. Dediquei-me às disciplinas e aproveitei para
frequentar os tantos eventos que a Unicamp oferece quase que cotidianamente.
Encerrado o primeiro semestre, começam a
surgir as primeiras dúvidas quanto ao Projeto de Pesquisa de Mestrado. Se
passar pelo processo seletivo era difícil, decidir sobre o foco do projeto após
cursar tantas disciplinas e ser exposta a tantas e interessantes novas ideias, era
ainda mais. O projeto de ingresso parecia não atender mais a todos os meus
interesses de estudo.
Em novembro finalizo o curso de
especialização e apresento no Congresso Brasileiro de Educação Médica o
trabalho de conclusão do curso – “Humanização no Ensino Médico: um estudo da
literatura”, orientado pela Professora Doutora Sylvia Batista.
No Mestrado as incertezas continuavam. Foram
muitas ideias que não prosperavam. Muitas lamentações, muitas conversas, muitas
leituras e muita ansiedade! O primeiro ano do mestrado estava terminando e eu
não tinha definido ainda um novo projeto para dedicar-me.
Já em 2011, o início da Pesquisa no Projeto
Observatório da Educação (Edital Capes), aliado às minhas indagações sobre a
formação dos professores proporcionadas pela prática em 2009, levou-me a
refletir sobre como esse era um foco que eu também gostaria de dar atenção
especial. Passei por um período de inúmeras tentativas de agregar em um único
projeto, um objetivo que abarcasse a formação médica e a formação de professores
de forma coerente.
Comecei a participar, também em 2011, do
Grupo de Avaliação do ProFIS[9] no NEPP[10] e isto foi definitivo na
configuração do meu novo Projeto de Pesquisa. Ao estudar um pouco sobre a
avaliação de impacto, comecei a definir o trabalho que apresento hoje.
2011 foi também um ano marcado por mais uma
perda irreparável. E como é difícil ter a certeza do nunca mais. Ainda assim, foi
o ano em que profissionalmente, finalmente, as coisas começaram a surgir
segundo o clichê “quando menos se espera, as coisas acontecem”. No segundo
semestre fui convidada a assumir, no Colégio onde cursei o Ensino Médio, e
estava no momento desenvolvendo um projeto extracurricular de autorregulação da
aprendizagem, a disciplina “Ética e Cidadania” para o Ensino Fundamental II. Sem
pensar e muito feliz, aceitei rapidamente. Um dia depois sou convidada a participar
de uma seleção curricular para a tutoria da parte presencial do curso Ética,
Valores e Cidadania na Escola. Fui selecionada!
O curso é oferecido pela USP no âmbito do Programa
UNIVESP e tem como objetivo oferecer aos profissionais da Educação do Estado de
São Paulo conhecimentos sobre ética na educação, sobre os processo de
construção de valores socialmente desejáveis e seus reflexos para o
desenvolvimento da cidadania ativa, além de oferecer acesso à pesquisa
acadêmica sobre tais temáticas. Não poderia ser melhor e ter mais sentido com
tudo que vinha realizando. O curso é semipresencial com encontros semanais
obrigatórios para o desenvolvimento de projetos colaborativos, baseados nos
princípios da Aprendizagem Baseada em Problemas e na realidade cotidiana das
escolas. Os projetos são orientados pelos tutores dos pólos.
Assim, tornei-me tutora de uma das turmas do
pólo Unicamp do curso de especialização em Ética, Valores e Cidadania na Escola
e desde então sou professora de Ética e Cidadania de adolescentes que me
instigam, encantam-me e fazem com que eu me apaixone a cada dia mais pela
docência; e sou também tutora de professores-estudantes que me mostram que o
idealismo não é “coisa de jovem idealista que ainda vai se decepcionar muito
com a realidade profissional”, mas sim uma crença de quem acredita na Educação
como forma de transformação social.
No COBEM de 2011 apresentei, na modalidade de
Colóquio, o trabalho “Caminhos curriculares nos cursos médicos em 10 anos de
DCNs” realizado com a Professora Elisabete Pereira.
Em 2012, qualificada[11], prossegui com a pesquisa
do mestrado, conciliando-a com as minhas atividades de professora, tutora e
pesquisadora no NEPP sobre o ProFIS. O trabalho no Núcleo resultou em uma
publicação junto das pesquisadoras Ana Maria Carneiro[12] e Cibele Yahn de Andrade[13] do artigo “Formação
interdisciplinar e inclusão social – o primeiro ano do ProFIS”.
Essas são as atividades que desempenho com
muito prazer e orgulho e que, por um acaso da vida, completam-se entre si e a
mim, auxiliam-me a ser o que hoje sou e me faz acreditar que a formação ética
pode e deve ser vivenciada nas escolas em todo e qualquer nível de ensino. Que
é a partir de uma formação mais humana, pautada na ética e com reflexão crítica
que poderemos desenvolver uma sociedade mais justa e verdadeiramente democrática.
São essas ideias que se refletem no trabalho “A formação universitária e o
exercício profissional: a avaliação de médicos e pedagogos egressos da Unicamp”
que agora apresento.
[1]
Música “Lindo Balão Azul”, Grupo Balão Mágico.
[2]
Bolsa trabalho do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE)
[3]
Diferente da Bolsa trabalho o programa de estágio não leva em consideração o
perfil socioeconômico dos alunos e tem carga horária maior que o programa da
Bolsa Trabalho SAE.
[4]
Faculdade de Ciências Médicas
[5]
Congresso Brasileiro de Educação Médica
[6]
GEPES – Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Educação Superior
[7]
PES – Psicologia da Educação Superior
[8]
CEDESS – Centro de Desenvolvimento da Educação Superior em Saúde
[9]
ProFIS – Programa de Formação Interdisciplinar da Unicamp
[10]
NEPP – Núcleo de Estudos de Políticas Públicas
[11]
O Exame da Qualificação do
Mestrado aconteceu em novembro de 2011.
[12] Pesquisadora do
Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) da Unicamp. Doutora em Política
Científica e Tecnológica e mestre em
Sociologia pela Unicamp. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal
de Goiás. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da
Inovação (GEOPI/DPCT/Unicamp).
[13] Pesquisadora do
NEPP. Doutoranda em Economia do Setor Público pelo Instituto de Economia da
Unicamp e graduada em Ciências Sociais
pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).
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