Para que serve a utopia?

"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Na linha da coerência...

As redes sociais continuam coloridas de coerência com a democracia que permite as mais diversas opiniões. Assim, tudo que se relaciona à política, sociedade e educação tornou-se apenas questão de opinião ou empiria. “É só a sua opinião. Eu vivi isso. Então é assim. Ponto.”
Indigna-me muito ver parte da mesma parcela que bradou por educação, dentre tantas outras reivindicações nas manifestações de 2013, não pararem para se questionar, nem ao menos por curiosidade, sobre o que professores, filósofos e sociólogos das melhores universidades deste país estão analisando sobre a realidade.
Olho por exemplo os ataques à Profa. Marilena Chauí. Depois de um argumento fundamentado no processo histórico, em análises sociológicas e econômicas de uma situação as “pessoas do bem” trazem seus argumentos, muitas vezes em caixa alta para demonstrar a indignação de cidadão politizado: “PTRALHA!!!!!!”; “VÉIA LOUCA!!!!!!!!!!”; “VÉIA DESPENTEADA!!!!!!!!!”
Não que todos precisem convergir às suas ideias. Não. A democracia é formada pela riqueza das opiniões contrárias, mas não das ofensas. Não é possível considerar tais xingamentos como argumentação.
Bradar por educação de qualidade, quando se ignora teorias desenvolvidas por pesquisadores que dedicam a sua vida a superar o senso comum e o individualismo, em nome de uma prática individual, nada mais é que um discurso vazio de quem se contenta com a própria existência para explicar o mundo.
O que me deixa ainda mais admirada, e me traz uma preguiça imensa de viver, são os cristãos nesse cenário “Bolsa família é coisa de vagabundo; a comunidade LGBT é a encarnação do mal na terra e direitos humanos apenas para humanos direitos, afinal bandido bom é bandido morto...” tudo perfeitamente inserido sem pudor algum em nome de Deus. Afinal, Jesus era mesmo a favor da pena de morte, ajudou a apedrejar a prostituta e multiplicou as varas de pesca, ensinando os famintos a pescar.
Qualquer pessoa que tenha ido a algumas poucas missas sabe que a história cristã não é essa. Mas é bem mais cômodo pagar o dízimo e continuar a criar as próprias verdades.

Ignorar toda a história: da Igreja, das religiões, de mundo. Um lugar quentinho para viver em paz com os próprios achismos. E assim bradamos por EDUCAÇÃO!!!! Em caixa alta e com muitas exclamações... 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Colorindo o céu com a coerência azul coxinha

Bolsa família não. Mas bolsa da família aos 30 e poucos porque ainda não pintou um trabalho bacana, tudo bem. Porque o importante é ensinar a pescar, né. Sei.
Aborto? Nem pensar! Em hipótese alguma! Crime!!! Bater em criança, lóóógico que sim!!! E se for pobre (preto, nem se fala) então, vamos encarcerar o quanto antes esses marginaizinhos! Bom mesmo seria ter pena de morte!
Cotas, lógico que não!!! Raciais então, racismo!!! Cota boa seria uma pra voltar esse povo reclamão limpando o chão lá de casa! Cota pra quê? Convivo com negros o tempo todo, minha faxineira e meu porteiro, inclusive, são negros, mas de alma branca!
Dia da parada gay? Eu quero um dia da parada hetero! Os heteros me entendem. Pondé sabe bem do que estou falando! Não está fácil pegar alguém com essa ditadura gay. Por uma parada hetero já!!! Porque só a heterossexualidade pode dar continuidade à raça humana, mas sem sexo antes do casamento, lóóógico. A família cristã agradece.
E voltando ao Bolsa Família. Dizer que tirou milhares, milhões, sei lá, da pobreza... Vocês não viram o grande intelectual, o – como é mesmo o nome dele? Jabor alguma coisa – não sei ao certo, mas vi um meme espetacular que explica direitinho que não foi essa bolsa esmola petista comunista que acabou com a pobreza, foi o Dr. FHC com o Plano Real, que há quem diga que nem é dele de verdade, mas não li o texto inteiro que explicava isso. Fiquei com preguiça.
...

sábado, 3 de maio de 2014

#somostodosmanipulados

NÃO!!!!
Não somos todos iguais!
Somos diferentes em gênero, número e cor!
Mas não! Uma campanha de brancos (ou não!), ricos e uma legião de fãs não adepta ao exercício de pensar para além das mídias tradicionais, segurando uma banana está aí, fortíssima, com camisetas a R$69,90, para mostrar que somos todos iguais! Lindo! SQN!
Campanha antirracista ou golpe contra políticas de inclusão? Quem duvida? O que parecia uma histeria coletiva contra o racismo já vem mostrando a sua cara real com memes que reforçam o desentendimento sobre as cotas, ou não, apenas o desejo real da manutenção da já existente segregação racial. O enfrentamento ao racismo mais uma vez deu espaço à deslegitimação das políticas de cotas raciais. 
Ah não, isso não é verdade, não queremos cotas porque não somos racistas e achamos que com cotas desmerecemos o negro... Mimimi!!!. Então ok. Troque de lugar com a maioria dos negros desse país. Viva em situação de pobreza. Sinta na pele a discriminação diária apenas por ser negro e aí saia em busca de "vencer na vida", vencendo antes o racismo que estará junto com você em muitos momentos. Impossível, né? Você nunca será negro! Pobre até pode ser, negro jamais.
Negar a história escravocrata racista desse país não é ser democrático. É ser, no mínimo, para atenuar, ingênuo. Liberdade sem direitos, não é liberdade, é opressão. Opressão imposta aos negros desse país até hoje e que com o acesso ao mínimo de reparação por toda a violência que sofreram e sofrem, ainda são vítimas de todo esse mimimi de quem fecha os olhos para a história do próprio país, num achismo ignorante de que o passado nada tem a ver com a história atual. Lamentável.
Faça o teste do pescoço e veja quantos negros há em posição igual ou semelhante à sua e da sua família classe média branca e entenda que o fim da escravidão nunca foi real nesse país. Reconheça-se como parte de uma cultura opressora, branco. É doído, eu sei, mas é preciso para o verdadeiro enfrentamento ao racismo. Porque comer bananas, meu caro, não fará de você menos racista. 


domingo, 5 de janeiro de 2014

De repente, 30!

Assoprar as velinhas pode ser um pouco assustador quando as velinhas são num número maior que o fôlego para apagar a todas elas.
Mas depois de tantas velas, vive-se com a certeza de que o copo está sempre meio cheio!
Tristezas no caminho? Muitas. Algumas imensuráveis. Mas alegrias mais. Vitórias mais. Conquistas. Amigas e amigos que fazem valer a pena! Família que é porto seguro.
Vontades que renascem. Desejos mais.
Palavras que faltam para traduzir a imensidão de sentimentos. Divagações, vontades e medos. Misturas. Vida para continuar.

Que seja só o primeiro terço de vida! Amém.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

“eu fico com a pureza da resposta das crianças...”


E lá se foi um semestre.
Semestre de poucas palavras por aqui. Só por aqui.
Vida profissional a todo vapor. E de repente eu era a nova diretora do Colégio no qual fui aluna há mais de dez anos... Então eu passei da vida [quase] pacata das segundas free, às manhãs agitadas como diretora/coordenadora/professora... Era muito “ora” pra uma pessoa só...  
Tinha ainda a tutoria do EVC, uma turma nova, a terceira!!! E mais novidades e mais responsabilidades.
É, eu estou mesmo no mundo de “gente grande”. Parece que não dá mais pra fugir.  
Medo, ansiedade e insegurança são apenas algumas poucas palavras que descrevem o furacão na qual me vi colocada. Palavras que me paralisaram tantas vezes, mas não as mais importantes. Jamais.
Amor. Amizade. Alegria. Esperança. Aprendizagem. Desafios. Essas sim são palavras que encheram meus dias. Fora os leões que teimavam em me atacar constantemente. E foi quase um por dia... as vezes era só um filhotinho, e aí com muito carinho e compreensão as coisas iam se ajeitando. As vezes era um leão velho, bravo e era preciso ir com tudo pra cima. E eu fui. Mesmo morrendo de medo.
E lá se foi agosto, setembro, outubro, novembro... coração apertado. Dizer tchau pra tudo de bonito que se construiu nunca é tarefa fácil. Esta não foi menos difícil.
Diminuímos a dor do até logo com abraços apertados e lágrimas que teimavam em escapar para dizer que valeu a pena!
Minhas manhãs nunca mais serão as mesmas... Conviver com a alegria e a esperteza que insistimos em tentar podar com a objetividade fria do mundo adulto é o que há de mais rico neste mundo. É por isso que estou com Gonzaguinha, “eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita e é bonita.”
 

terça-feira, 25 de junho de 2013

"Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes..." (Paulo Freire)

Por que diferentes conhecimentos devem ter diferentes valores?
Por que uma sociedade que ainda não garante educação pública gratuita de qualidade a todos os seus cidadãos e cidadãs pode querer pautar os salários com base apenas no conhecimento acumulado pelas academias, desmerecendo o valor do conhecimento menos erudito? Não entendo.
E ainda que a educação se universalize também na sua qualidade, precisamos mesmo que todos se tornem doutores? Então não precisamos mais de pedreiros, encanadores, domésticas, eletricistas... Precisamos, mas ainda assim, estes não merecem bons salários?!?
Esse tipo de pensamento só deixa ainda mais claro como a nossa elite não vê com bons olhos que pessoas que não frequentaram os mesmos bancos escolares que ela frequentou possam ganhar dinheiro e garantir uma possibilidade social menos desigual.
Posso dizer por experiência. Era comum no Ensino médio os professores humilharem os alunos (bastante didático!!! Só que não!) dizendo que os mesmos tinham “letra de pedreiro!!!”. Eu, filha de pedreiro, uma vez fui contestar e o professor insistiu que meu pai não era pedreiro, mas sim, mestre de obras. Oi? Então ele não achava possível que um pedreiro pudesse pagar o seu salário? 
Para legitimar esse pensamento vale tudo: comparar salário de médico cirurgião do interior com um atendimento de pedreiro domiciliar em uma região metropolita de São Paulo. Ora, eu pergunto: Se vamos comparar, que comparemos ao menos na mesma região. Quanto lhe cobraria um cirurgião por um atendimento doméstico?
Não estou dizendo que o salário e as condições dos médicos em grande parte dos hospitais públicos do Brasil são boas, não são. Não precisa ser um grande estudioso para constatar esses dados. No entanto, não nos damos por satisfeitos ao questionarmos essas condições dos médicos, precisamos esbravejar nosso rancor em pagar decentemente por um trabalho não erudito, que não somos capazes de fazer, mas que achamos que o outro, deve sim fazer por menos para nós.
Mas sim, somos homens e mulheres de bem. Justos. Só não gostamos de pagar impostos tão caros e ver gente sem estudo ganhando tanto. Afinal, classe média já sofre muito.

sábado, 4 de maio de 2013

E me disseram que tenho medo de mudar de opinião. Sim eu tenho. Não pelo medo de pensar diferente do que penso hoje. Porque não sou uma “meio intelectual meio de esquerda” que acabou de ingressar num curso de Humanas e está encantada com as... teorias marxistas. Não. Entrei na Universidade há quase dez anos. Marx, inclusive, demorou um bom tempo para fazer sentido, porque não é tão simples e superficial como os memes do facebook. Fiz graduação, especialização, mestrado. Quanto mais conheço das teorias e do mundo é que as ideias da esquerda me convencem como verdade para um mundo melhor, no qual reconheço minhas responsabilidades individuais tendo em vista bens coletivos. Então, não é que eu tenha medo de mudar de opinião por um idealismo juvenil impensado, insensato; meu medo é o de mudar e me tornar mais uma no mundo pensando igual a maioria apenas pelo comodismo do intelectualismo de sofá. Ver mais

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