Para que serve a utopia?

"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8

domingo, 20 de fevereiro de 2011

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Hoje, 20 de fevereiro de 2011, meu pai faria 59 anos, não fosse o mundo em que vivemos...
Não fosse a injustiça social que renega à pobreza: crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos colocados num lugar à parte na sociedade...
Não fosse a indiferença de políticos que embolsam milhares, milhões de reais em suas falcatruas ao invés de investir em políticas públicas de educação de qualidade, saúde, moradia...
Não fosse a sociedade a marginalizar jovens pobres a um destino sem sonho, sem expectativas...
Não foi apenas um marginal que fez disparar uma arma para se safar de um assalto mal sucedido. Foi tudo isso e mais.
Foi toda madame que olhou com desprezo para um menino de rua.
Foi todo o achismo barato de que na favela só tem bandido!
“...o crime é um protesto contra a anormalidade do sistema social e só...” (Crime e Castigo - Dostoiévski)
As vítimas de algum crime ficam à espera de justiça. Que justiça se pode esperar depois de uma perda?
Eu, assim como Paulo Freire, espero por uma justiça social, que seja rápida e urgente, e se implante antes da caridade.  

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 8


Depois de uma breve divagação com a dúvida se tudo aquilo era mesmo real, decidi trazer-me de volta àquela situação e percebi Victor amigo da “galerinha” e aceitando algo verde deles. A princípio achei tudo um absurdo. Então era esse o cenário de viagem de bodas? Perdidos em Búzios, num albergue úmido de madeira, com uns hippies, e um cigarrinho de maconha?

Ao menos a chuva já tinha parado e Victor me convenceu a sair do quarto, o que também não precisava de muita insistência. Acabamos caminhando até a praia que era bem perto dali. Victor me olhou como quem diz “que tal?”, já acendendo um fósforo que havia pegado com os hippies também. Acabamos a noite rindo à toa e, deitados na areia molhada, adormecemos. Acordamos a tempo de presenciar um nascer do sol espetacular. Nessa hora, olhei para nós e já estávamos rindo muito, não mais pelo efeito anestesiante do nosso cigarro, mas por pensarmos sobre com qual moral falaríamos sobre drogas e segurança para nossos filhos... Mas essas são histórias apenas para contar para os netos.

Voltamos para o quarto e os hippies, agora melhores amigos de Victor, já estavam todos na “pegada” para curtir umas ondas. Então eles eram surfistas? Jurava que eram hippies! Essa geração não tem muita personalidade, pensei. Acabamos tomando café da manhã juntos e foi muito agradável. Eram jovens animados, felizes, curtindo a vida. Aproveitando a semana do saco cheio da universidade para viajar. Senti até uma certa invejinha deles. Daquela alegria toda, aquela vida saltando pelos olhos, aquela ânsia por viver, por aproveitar cada segundo, quase me senti uma universitária ao lado deles com tantas recordações que tomaram conta de mim.

Depois do café fomos direto para recepção para encerrarmos nossa breve estadia no albergue e o hippie da recepção nos presenteou pelas nossas bodas e não nos cobrou absolutamente nada. Ainda deixou um cartão do “Hostel” para quando quiséssemos voltar. Ele garantiu que sempre teria um quarto especial para nós. Acabamos ficando sem graça de não pagar, afinal, nos alojamos ali por algumas horas e Victor deixou uma cervejinha para o hippie.

Entramos no carro e fui logo dizendo: Por que é que não perguntamos como chegamos no nosso hotel? Victor disse que seria muito descortês da nossa parte pedir informação sobre um hotel depois de termos sido tão bem tratados no “Hostel”. Agora ele nem dizia mais albergue. Sabíamos que nosso Hotel ficava de frente para o mar, então não deveria ser tão difícil encontrá-lo. Seguimos até a praia novamente, andamos uma quadra e lá estava: nosso hotel. Nosso hotel estava apenas há uma quadra do Hostel.

Lá eu mal precisei sair do carro com tantos paparicos de funcionários para tudo. Chego a me sentir sufocada, mas tudo que eu queria era um bom banho e cama. Dessa vez apenas para dormir. E dormimos, novamente até o anoitecer. E lá se foram dois dias da nossa viagem.

Saímos da hibernação apenas para o jantar. Tudo uma delícia, mas uma gente estranha, nariz empinado, que fala baixinho. Não gosto! Comecei a sentir falta dos hippies. E eu estou até agora sem entender o porquê, mas um casal, desses novos burgueses, não sei se eram mesmo, mas eram típicos, resolveram ficar nossos amigos. Não! Não estávamos ali pra fazer amizade com uma mulher que usa maquiagem e jóias para ir à praia e um marido brancão que parece um pão cru que parece ter sido alfabetizado apenas para dizer “sim, meu amor”. Eu sei. Esses não são motivos cabíveis, mas eles eram enfadonhos. Já no nosso primeiro jantar decidiram sentar-se conosco. Dizem que sempre fazem isso, escolhem um casal para partilhar a companhia deles. Deve ser porque eles sozinhos não se agüentam!!!!!!

Eles nos acompanharam também no dia seguinte por todos os lados. Café da manhã, praia, lojinhas. Escolhi um boteco pé na areia, beira mar para parar, imaginei que a madame odiaria e desistiria da nossa companhia, mas não! Ela reclamou, mas disse que gostara tanto da nossa companhia que faria esse sacrifício por nós. Ele, um palerma, do tipo que só dizia: “Sim, senhora” e pagava as contas, aceitou também sem pestanejar. Foi então que encontramos nossos amigos, os hippies surfistas, nesse momento nossos melhores amigos. Foi uma juntação de mesas, cerveja pra todo mundo, camarão, peixe frito, caipirinha. Adoro! Mas não demorou muito para a Rôrô, foi assim que ela se apresentou e esqueci-me de perguntar seu verdadeiro nome, sentir dor de cabeça e dizer que nos aguardaria para o jantar no Hotel. Mal consegui ouvi-la pois nesse momento a música já rolava alto e já estávamos dançando a beira mar e rolando na areia já sob a luz de uma lua espetacular.

Chegamos no Hotel tão felizes que fomos convidados a usar o elevador de serviço. Acordei no outro dia meio empanada de areia ainda. Talvez por isso tenham pedido para usarmos o elevador de serviço.

Os outros dias foram mais normais. Resolvemos nos disfarçar de casal quarentão em busca de descanso e ficamos na vidinha mansa e comportada sem mais cigarrinhos ou grande porres. Na verdade eu já não agüentava mais ficar de ressaca, e então aproveitamos para aproveitar mais a dois. Nosso casal de “amigos” já havia nos abandonado e nem nos disseram tchau. Bandidos. [RS.]

No último dia ainda acordamos cedo e nos ocupamos nas lojinhas comprando as lembrancinhas para as crianças, mãe, pai, sogra, empregada... “Estive em Búzios e me lembrei de você”... Uma mentira. [RS.]

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

FRIDA

Talvez seu caminho fosse mesmo o acadêmico, era que o pensava Frida tentando convencer-se de que tudo estava como deveria estar. Tentava então ir mais devagar e entregar-se por inteiro aos projetos que tinha. Terminar o que começara, da melhor maneira possível, eis sua prioridade!

Como sempre queria mais, e apesar de tentar desacelerar um pouco, desejava também dedicar-se à arte para dar mais leveza à sua vida. Dança, teatro, canto, quem sabe! Era preciso fazer algo mais. Deixar o medo de lado e apenas fazer. Bem ou mal. Não importava mais. Não ligaria mais para essas subjetividades que atravancavam desejos maiores que não podiam mais ser ignorados.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

FRIDA

E Frida estava mais desorientada do que nunca. Novamente não tinha emprego. Não tinha um amor. Sentia não ter nada e envergonhava-se em sentir-se assim diante das mazelas do mundo.

Frida estava decepcionada, mas ao menos dessa vez sentia o alívio de não ser consigo mesma. Não entendia como algumas pessoas eram capazes de articulações tão excêntricas para lucrar. Mas tinha a certeza de não querer compartilhar disso de forma alguma e, apesar de sentir-se tranqüila diante de sua decisão, sentia-se triste e angustiada com sua falta de forma angular para encaixar-se nesse mundo de asfalto e sem coração.

Assustada e ansiosa entendia perfeitamente a necessidade dos alcoólatras para encarar a cruel realidade. Viver sóbrio e consciente, isso sim são coisas de louco.

LIBERDADE É AMAR

Você ama alguém. Esta é a certeza que move suas decisões. Seu jeito de se vestir. Os lugares aos quais decide ir. Alguns de seus prazeres e muitas das suas lágrimas.

Não interessa que você não é correspondido. Você ama e ponto final. E esse sentimento, mesmo não compartilhado, oferece uma certeza na sua vida. Você sabe sobre você e sobre seus desejos.

Até que um dia, assim, sem mais nem menos, você se dá conta que não é amor. É carência, tesão, amizade talvez, uma paixão que passou. Mas não amor. Aí você é capaz de perceber como aquele sentimento que incomodou por meses, anos; que te fazia prisioneiro de pensamentos e ilusões, oferecia um conforto maior que a incerteza que se instaurou sobre você desde o momento da descoberta do não amor.

Aquele sentimento, que agora você não sabe mais denominar, te deixava no comodismo de não ter mais que procurar pela pessoa ideal, tamanha era a certeza de já tê-la encontrado. O sentimento novo, do não amor, desorienta. Angustia. Deixa um vazio que te faz desesperadamente querer preencher com alguma coisa.

Amar não é fácil, mesmo quando se é correspondido. Mas não amar é uma tarefa que exige uma tranqüilidade que eu ainda não alcancei. Você fica com o sinal de alerta ligado por 24 horas por dia, 7 dias da semana! Fica a eterna busca. O medo da solidão. Porque as ilusões fazem companhia. Ilusões te colocam num mundo de fantasia que ajuda a lidar com a crueldade do mundo real. A falta de amor causa ansiedade. Faltam os desejos. Desejos bobos, simples. O desejo de apenas querer ver. Sentir o coração batendo mais forte. A alegria boba por ouvir um simples “oi” daquela pessoa. O frio na barriga ao sentir o cheiro dela. O desejo de conquistá-la.

É o amor que nos move. Amar te deixa pronto para assumir atitudes inimagináveis para se estar com alguém. Tira o sono, mas deixa um sorriso enigmático nos lábios por cada lembrança que arrepia a espinha.

Não amar te tira todas essas sensações indenomináveis, deixando apenas a falsa tranqüilidade que atormenta na busca por sentir-se novamente prisioneiro de um sentimento que, tamanha sua latência, faz te sentir vivo.

Liberdade é amar. E assim como Cazuza “eu quero a sorte de um amor tranqüilo”.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

FRIDA

E Frida então, finalmente, entendeu que não era amor. Sentiu-se perdida. Fraca e odiável. Mas resolveu que então sairia à busa de um amor de verdade. Apesar da incerteza sobre sua existência. Aceitou convites. Dançou. Cantou. Bebeu. Riu. Fez novas amizades. Divirtiu-se. Mas aquele vazio, aquele que fazia com que sentisse sempre em busca de algo mais, continuava lá, agora ainda mais forte.

Dedicara-se mais à família. Já tinha um emprego. E diante de sua insegurança, apenas desejava ter acertado nas suas decisões.  Sentia medo. Um pouco de vergonha. Desejava uma vida diferente nessa idade, ou então, apenas ter 19 anos ainda para fazer tudo diferente, cometer novos erros com menos culpa.

Agora sentia-se como uma peça errada no quebra cabeça. Não se encaixava em ponta alguma, nem direita, nem esquerda. No centro sentia-se ainda mais perdida. Discordava de tanta coisa. Discutia com os programas jornalísticos, superficiais e sensacionalistas. Indignava-se com a futilidade da população tão interessada nos reality shows que invadiram as programações.

Desejava pensar menos. Divagar e questionar menos. Parar de buscar respostas para o que, talvez, fosse mesmo incompreensível e apenas aceitar. Mas também não sabia como fazer isso. Era incapaz.

E em meio a tantas divagações sobre política, sociedade e educação percebia-se igual a toda menina que ainda esperava por um príncipe encantado e temia. Talvez agora desejasse uma vida mais piegas e talvez seu maior medo, inconfessável, fosse de que o seu conto de fadas nunca chegasse. Que nunca fosse capaz de dizer "Eu te amo" para alguém tendo a certeza de que ouviria como resposta a mesma coisa sincera e fielmente.

Mas Frida seguia seu caminho. Em busca. Mesmo sem saber ao certo o que buscava. Fraquejava às vezes e apenas desejava não viver mais nesse mundo. Mas erguia-se. Curava suas feridas como podia e sorria para as armações que o mundo pregava. E Frida continua tentando... Sempre tentará.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 7


Minha pele está ótima! Tom bronzeado com marquinha de biquíni. O Victor adora! Cabelos levemente queimados do sol, ou seja, luzes naturais!!! Parece até que meu corpo está mais firme. Uma semana maravilhosa, meu caro espelho! Dá pra notar na pele, não é? [RS]

Foi bom. Bom? Foi ótimo! Senti-me novamente com 30 anos, recém-casada, e apesar de um certo peso na consciência em sentir-me feliz por não precisar acordar cedo para levar as crianças na escola, ter que pensar no lanche, no uniforme, no dever de casa e ainda conciliar isso tudo com meu trabalho, foi maravilhoso!

É bem verdade que a frequencia do sexo, comparando-se com 10 anos atrás, diminuiu um pouco, mas a qualidade... Victor ainda consegue me surpreender nessas horas, e quem é que precisa de pães branquinhos com um sexo desses!!! [RS]

Foram só cinco dias. Resolvemos diminuir para não nos sentirmos tão culpados de deixar as crianças por uma semana inteira como órfãos nômades na casa dos avós, ora maternos, ora paternos.

Sim, eu demorei um pouco a entrar no clima de “lua de mel”. Esquecer aquele encontro não foi fácil. Durante a viagem o Victor chegou a fazer a pergunta que eu tanto temia “O que você tem? Você está estranha.” Inventei que de repente comecei a sentir medo de viajar de avião, que estava ansiosa e ele segurou minha mão de tal forma que minha culpa fez logo com que eu arrumasse um jeito de tirar aquela história sem sentido da minha cabeça.

Pousamos no Rio e lá alugamos um carro para continuarmos até Búzios. Mas próximo de Búzios, com a insensatez de um adolescente, Victor fez um desvio maluco que nos colocou a beira mar, numa vista perfeita e... Achei que isso nunca mais aconteceria no carro, mas voltei a compreender o amável desconforto de se estar num carro com um homem... Reencontrei no Victor aquele jovem rapaz engraçado, com um ótimo pique de piadas por quem eu havia me apaixonado, mas dessa vez nem pensamos em discutir “Crime e Castigo”. [RS].

Demo-nos conta que o sol já havia se posto há muito tempo e o cenário perfeito pedia pelo brilho céu uma lua cheia, mas não, deparamo-nos com trovões e um tempo se fechando que fez com que nos apressássemos para encontrar o hotel que pelas nossas contas devia estar há no máximo uma hora dali. A chuva foi mais rápida que nós e, segundo Victor, foi esse o motivo que nos fez acabar num quarto coletivo de Albergue depois de quase 4h rodando!!! Não ousei dizer que foi sua busca por caminhos alternativos depois do nosso escape, ou sua arrogância e prepotência em não admitir-se perdido numa cidadezinha de uns 25 mil habitantes e parar para pedir informação!

E é daí que começaria uma noite esquecível de segunda lua de mel... Um quarto com 7 beliches, 1 banheiro. Ar condicionado? Artigo de luxo! Só havia nas suítes Vips, todas ocupadas quando chegamos. Nosso quarto dispunha de um ótimo ventilador de teto que fazia tremer toda aquela estrutura de madeira. Pernilongos? Muitos! Quando chegamos o moço da recepção, um hippie, dono de um imenso rastafári nos disse que tivemos sorte porque aquele quarto estava vazio e poderíamos ficar a vontade. Era uma maravilha: Victor, eu e 6 beliches.

Victor, tentando me consolar, colocou-se a arrumar colchões no chão e emendar lençóis, mas para completar a cena perfeita da lua do mel, adentra ao quarto uma galerinha com um cheiro de erva que não me era estranho, mas o tempo não me permitia reconhecer com total nitidez. Fiquei atordoada e não sei se contei direito, mas acho que eram 9. 4 casais, mas não sobrava ninguém. Essa geração resolve qualquer problema e “segurar vela” é coisa do passado. Pedi ao Victor que colocasse os colchões no lugar. Tudo o que eu queria era um dramin que me fizesse dormir profundamente...

Mas a noite estava só começando...



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