Para que serve a utopia?

"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 9


Demitida. DE-MI-TI-DA. Por que eu? Por que comigo?
“A empresa está precisando diminuir os gastos e houve a necessidade de alguns cortes, não é nada pessoal, o seu trabalho é ótimo e temos a certeza de que não será difícil você se recolocar no mercado de trabalho, mas entenda que nesse momento a empresa precisa tomar algumas decisões e bla bla bla...”
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!”
Deve existir alguma lei da Física que impede que se mantenha uma estabilidade emocional. Depois das bodas, da viagem de “lua de mel”, parecia que finalmente tudo iria ficar bem, e eu já ousava pensar no meu happy end, e agora...
Começo a pensar em como ocupar meu tempo. Parte dele irá para terapia. Eu preciso de alguém que me ouça e que me retorne alguma resposta. Eu preciso de respostas!
O pouco tempo que sobrará eu pretendo dedicar às crianças, mas tenho medo de não saber como fazer isso. Fico pensando que nunca fui mãe em tempo integral. Como é ter um dia inteiro com os filhos? Será que eu dou conta? Será que eu sei ser esse tipo de mãe? E se eles passarem a me odiar?
Acho que vou me matricular em algum curso. Tentar algum curso de madames. Ou me irrito com elas e mato uma, ou convenço-me a ser uma delas e aceito os peitos que Victor me ofereceu de presente.
Ando com uma fixação com silicone... Tenho falado muito nisso, pensado muito nisso. Acho que Victor abalou minha auto-estima com essa oferta. Auto-estima que nesse caso específico já não estava muito “pra cima”.
Tenho 40 anos, e quando pensei que tudo estava exatamente do jeito que eu havia pensado, estou desempregada. Meu Deus, como essa palavra pesa! Victor, tentando me acalmar, me animar talvez, disse para eu não me preocupar, que não teríamos problemas financeiros com isso, que ele estava prestes a conseguir a promoção que tanto batalhara e com o seu aumento continuaríamos a ter a nossa vida confortável de sempre.
E eu? Como eu fico nessa história? E a minha carreira? No fim Victor é apenas mais um machistazinho disfarçado. Deve estar muito feliz de poder dizer que tem a mulher em casa. Estou até vendo ele me oferecendo um cartão de crédito para poder compartilhar com os amigos as piadas sobre os gastos das esposas.
Eu estou parecendo uma panda, e não é porque dormi bêbada de rímel. São olheiras profundas de quem chorou por horas, inconsolável. Tento me consolar lembrando da insuportável da Deise, com que não terei mais que conviver. Uma mulher arrogante, metida a intelectual, mas que diz que está “meia cansada” de trabalhar tanto e pensa em mudar de ramo. Mudar de ramo! Sei, vai assumir a profissão que a colocou onde está hoje. A mulher é iletrada! Uma vez me mandou uma mensagem dizendo “ADEVIR alguém muito especial para te fazer feliz”. O resto da frase também tinha erros, lógico, mas nada que se compare ao “adevir” que deve ser irmão do Ademir do Xerox. [RS]
Muito bem, Cláudia, Parabéns! O seu há de vir é perfeito, e daí? Olha pra você agora! Ahhhhh!!!! Eu não sei como vou sobreviver!!! Vou morrer de saudades do pessoal do administrativo, era lá que eu me mantinha atualizada nas gírias atuais. Passar por lá era sempre certeza de muita risada. A garotada do Xerox, sempre tão atenciosos e simpáticos.
Garotada? Quando é que eu comecei a falar assim, meu Deus?!?! Não faz nem 24 horas que estou em casa e já estou incorporando todo o peso de ser uma quarentona dentro de casa.
A D. Bene do cafezinho, diria para eu parar de ser boba, que ainda sou uma menina. Eu vou morrer de saudades de tudo isso. Talvez sinta saudade até da Deise “meia cansada”, porque ao menos ela nos proporcionava boas gargalhadas, ainda se ela tivesse me enviado um bilhete garantindo que “adevir” um emprego melhor pra mim.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 8


Depois de uma breve divagação com a dúvida se tudo aquilo era mesmo real, decidi trazer-me de volta àquela situação e percebi Victor amigo da “galerinha” e aceitando algo verde deles. A princípio achei tudo um absurdo. Então era esse o cenário de viagem de bodas? Perdidos em Búzios, num albergue úmido de madeira, com uns hippies, e um cigarrinho de maconha?

Ao menos a chuva já tinha parado e Victor me convenceu a sair do quarto, o que também não precisava de muita insistência. Acabamos caminhando até a praia que era bem perto dali. Victor me olhou como quem diz “que tal?”, já acendendo um fósforo que havia pegado com os hippies também. Acabamos a noite rindo à toa e, deitados na areia molhada, adormecemos. Acordamos a tempo de presenciar um nascer do sol espetacular. Nessa hora, olhei para nós e já estávamos rindo muito, não mais pelo efeito anestesiante do nosso cigarro, mas por pensarmos sobre com qual moral falaríamos sobre drogas e segurança para nossos filhos... Mas essas são histórias apenas para contar para os netos.

Voltamos para o quarto e os hippies, agora melhores amigos de Victor, já estavam todos na “pegada” para curtir umas ondas. Então eles eram surfistas? Jurava que eram hippies! Essa geração não tem muita personalidade, pensei. Acabamos tomando café da manhã juntos e foi muito agradável. Eram jovens animados, felizes, curtindo a vida. Aproveitando a semana do saco cheio da universidade para viajar. Senti até uma certa invejinha deles. Daquela alegria toda, aquela vida saltando pelos olhos, aquela ânsia por viver, por aproveitar cada segundo, quase me senti uma universitária ao lado deles com tantas recordações que tomaram conta de mim.

Depois do café fomos direto para recepção para encerrarmos nossa breve estadia no albergue e o hippie da recepção nos presenteou pelas nossas bodas e não nos cobrou absolutamente nada. Ainda deixou um cartão do “Hostel” para quando quiséssemos voltar. Ele garantiu que sempre teria um quarto especial para nós. Acabamos ficando sem graça de não pagar, afinal, nos alojamos ali por algumas horas e Victor deixou uma cervejinha para o hippie.

Entramos no carro e fui logo dizendo: Por que é que não perguntamos como chegamos no nosso hotel? Victor disse que seria muito descortês da nossa parte pedir informação sobre um hotel depois de termos sido tão bem tratados no “Hostel”. Agora ele nem dizia mais albergue. Sabíamos que nosso Hotel ficava de frente para o mar, então não deveria ser tão difícil encontrá-lo. Seguimos até a praia novamente, andamos uma quadra e lá estava: nosso hotel. Nosso hotel estava apenas há uma quadra do Hostel.

Lá eu mal precisei sair do carro com tantos paparicos de funcionários para tudo. Chego a me sentir sufocada, mas tudo que eu queria era um bom banho e cama. Dessa vez apenas para dormir. E dormimos, novamente até o anoitecer. E lá se foram dois dias da nossa viagem.

Saímos da hibernação apenas para o jantar. Tudo uma delícia, mas uma gente estranha, nariz empinado, que fala baixinho. Não gosto! Comecei a sentir falta dos hippies. E eu estou até agora sem entender o porquê, mas um casal, desses novos burgueses, não sei se eram mesmo, mas eram típicos, resolveram ficar nossos amigos. Não! Não estávamos ali pra fazer amizade com uma mulher que usa maquiagem e jóias para ir à praia e um marido brancão que parece um pão cru que parece ter sido alfabetizado apenas para dizer “sim, meu amor”. Eu sei. Esses não são motivos cabíveis, mas eles eram enfadonhos. Já no nosso primeiro jantar decidiram sentar-se conosco. Dizem que sempre fazem isso, escolhem um casal para partilhar a companhia deles. Deve ser porque eles sozinhos não se agüentam!!!!!!

Eles nos acompanharam também no dia seguinte por todos os lados. Café da manhã, praia, lojinhas. Escolhi um boteco pé na areia, beira mar para parar, imaginei que a madame odiaria e desistiria da nossa companhia, mas não! Ela reclamou, mas disse que gostara tanto da nossa companhia que faria esse sacrifício por nós. Ele, um palerma, do tipo que só dizia: “Sim, senhora” e pagava as contas, aceitou também sem pestanejar. Foi então que encontramos nossos amigos, os hippies surfistas, nesse momento nossos melhores amigos. Foi uma juntação de mesas, cerveja pra todo mundo, camarão, peixe frito, caipirinha. Adoro! Mas não demorou muito para a Rôrô, foi assim que ela se apresentou e esqueci-me de perguntar seu verdadeiro nome, sentir dor de cabeça e dizer que nos aguardaria para o jantar no Hotel. Mal consegui ouvi-la pois nesse momento a música já rolava alto e já estávamos dançando a beira mar e rolando na areia já sob a luz de uma lua espetacular.

Chegamos no Hotel tão felizes que fomos convidados a usar o elevador de serviço. Acordei no outro dia meio empanada de areia ainda. Talvez por isso tenham pedido para usarmos o elevador de serviço.

Os outros dias foram mais normais. Resolvemos nos disfarçar de casal quarentão em busca de descanso e ficamos na vidinha mansa e comportada sem mais cigarrinhos ou grande porres. Na verdade eu já não agüentava mais ficar de ressaca, e então aproveitamos para aproveitar mais a dois. Nosso casal de “amigos” já havia nos abandonado e nem nos disseram tchau. Bandidos. [RS.]

No último dia ainda acordamos cedo e nos ocupamos nas lojinhas comprando as lembrancinhas para as crianças, mãe, pai, sogra, empregada... “Estive em Búzios e me lembrei de você”... Uma mentira. [RS.]

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 7


Minha pele está ótima! Tom bronzeado com marquinha de biquíni. O Victor adora! Cabelos levemente queimados do sol, ou seja, luzes naturais!!! Parece até que meu corpo está mais firme. Uma semana maravilhosa, meu caro espelho! Dá pra notar na pele, não é? [RS]

Foi bom. Bom? Foi ótimo! Senti-me novamente com 30 anos, recém-casada, e apesar de um certo peso na consciência em sentir-me feliz por não precisar acordar cedo para levar as crianças na escola, ter que pensar no lanche, no uniforme, no dever de casa e ainda conciliar isso tudo com meu trabalho, foi maravilhoso!

É bem verdade que a frequencia do sexo, comparando-se com 10 anos atrás, diminuiu um pouco, mas a qualidade... Victor ainda consegue me surpreender nessas horas, e quem é que precisa de pães branquinhos com um sexo desses!!! [RS]

Foram só cinco dias. Resolvemos diminuir para não nos sentirmos tão culpados de deixar as crianças por uma semana inteira como órfãos nômades na casa dos avós, ora maternos, ora paternos.

Sim, eu demorei um pouco a entrar no clima de “lua de mel”. Esquecer aquele encontro não foi fácil. Durante a viagem o Victor chegou a fazer a pergunta que eu tanto temia “O que você tem? Você está estranha.” Inventei que de repente comecei a sentir medo de viajar de avião, que estava ansiosa e ele segurou minha mão de tal forma que minha culpa fez logo com que eu arrumasse um jeito de tirar aquela história sem sentido da minha cabeça.

Pousamos no Rio e lá alugamos um carro para continuarmos até Búzios. Mas próximo de Búzios, com a insensatez de um adolescente, Victor fez um desvio maluco que nos colocou a beira mar, numa vista perfeita e... Achei que isso nunca mais aconteceria no carro, mas voltei a compreender o amável desconforto de se estar num carro com um homem... Reencontrei no Victor aquele jovem rapaz engraçado, com um ótimo pique de piadas por quem eu havia me apaixonado, mas dessa vez nem pensamos em discutir “Crime e Castigo”. [RS].

Demo-nos conta que o sol já havia se posto há muito tempo e o cenário perfeito pedia pelo brilho céu uma lua cheia, mas não, deparamo-nos com trovões e um tempo se fechando que fez com que nos apressássemos para encontrar o hotel que pelas nossas contas devia estar há no máximo uma hora dali. A chuva foi mais rápida que nós e, segundo Victor, foi esse o motivo que nos fez acabar num quarto coletivo de Albergue depois de quase 4h rodando!!! Não ousei dizer que foi sua busca por caminhos alternativos depois do nosso escape, ou sua arrogância e prepotência em não admitir-se perdido numa cidadezinha de uns 25 mil habitantes e parar para pedir informação!

E é daí que começaria uma noite esquecível de segunda lua de mel... Um quarto com 7 beliches, 1 banheiro. Ar condicionado? Artigo de luxo! Só havia nas suítes Vips, todas ocupadas quando chegamos. Nosso quarto dispunha de um ótimo ventilador de teto que fazia tremer toda aquela estrutura de madeira. Pernilongos? Muitos! Quando chegamos o moço da recepção, um hippie, dono de um imenso rastafári nos disse que tivemos sorte porque aquele quarto estava vazio e poderíamos ficar a vontade. Era uma maravilha: Victor, eu e 6 beliches.

Victor, tentando me consolar, colocou-se a arrumar colchões no chão e emendar lençóis, mas para completar a cena perfeita da lua do mel, adentra ao quarto uma galerinha com um cheiro de erva que não me era estranho, mas o tempo não me permitia reconhecer com total nitidez. Fiquei atordoada e não sei se contei direito, mas acho que eram 9. 4 casais, mas não sobrava ninguém. Essa geração resolve qualquer problema e “segurar vela” é coisa do passado. Pedi ao Victor que colocasse os colchões no lugar. Tudo o que eu queria era um dramin que me fizesse dormir profundamente...

Mas a noite estava só começando...



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 6

PARTE 5

Que dia! Eu ainda estou com as pernas trêmulas. Hoje foi o fatídico dia. Relembrando que há 10 anos, lá estava eu, felicíssima porque, afinal, não ficaria oficialmente para titia, encenando o teatro que mais gira a economia – o casamento –de véu e grinalda brancos.
Eu não sei quem é que teve essa ideia de bodas para cada ano de vida conjugal. Se pensar numa festa de casamento já é um tormento, pensar numa festa para se comemorar anos de casada é um tormento em dobro. Agora não é mais aquela insegurança de que ele não apareça. Agora é o trabalho para ajeitar tudo. Fazer muita coisa em casa para economizar e ainda dar conta das crianças, dos cachorros, da casa, do marido que tentando ajudar, atrapalha.
E foi por isso que acabei tendo que ir buscar os camafeus uma hora antes da festa, e foi aí que começou a grande emoção do dia.
Eu não acredito que ele ainda é capaz de me deixar com as pernas bambas e de me fazer tremer e ficar meio agitada, dizendo coisas sem sentido e gesticulando mais do que qualquer italiano esbravejando.
Que olhar de reprovação é esse? Não tive a menor culpa! Encontrá-lo foi coisa do acaso e talvez seja pra eu repensar meus últimos dez anos. Afinal, de certa forma, foi por causa dele que acabei ficando com Victor, quando Mariá me convenceu que ele era o homem certo pra mim, e não um cafajeste que tudo que conseguia era me dar uns prazeres fugazes e depois me deixar por semanas arrastando correntes.
Foi muito estranho. Aquele esbarrão, ele me chamando pelo meu apelido de 20 anos atrás, aquele mesmo sorriso cheio de dentes de sempre, as gracinhas de sempre. Não tem nada de inovador, e como eu, alguém que gosta tanto de ser surpreendida, pode ainda se encantar com essa personificação da mesmice?
Não! Não que tenha ficado encantada, não disse isso. Mas é que fazia tanto tempo que não o via, que fiquei paralisada. Vieram tantas lembranças. Tantas dúvidas. Aquele “e se” que atormenta você por alguns momentos intermináveis.
Perguntou se eu estava bem. O que estava fazendo da vida. Ah as perguntinhas básicas do socialmente aceito e a despedida cafajeste de sempre – um abraço apertado e um sussuro no ouvido “saudades de você”. Saudades de mim? Como assim? Não devia nem se lembrar da minha existência mais.
Fiquei pensando que ele em nenhum momento disse meu nome, não deve ter ousado chutar para não correr o risco de uma gafe, tenho certeza. Ah sim, ele me chamou pelo apelido. Mas ninguém me chama assim mais há uns 20 anos. Ele mesmo não me chamava mais assim. É, às vezes chamava.  
Fiquei desnorteada. Derrubei a caixa com os camafeus. Quase esqueci de pagá-los. Passei por um sinal fechado e um cara muito grosseiro me disse barbaridades. Quanta incompreensão nesse mundo, meu Deus!
Victor me salvou de parecer drogada com uma surpresa. Assim que cheguei, havia um telão em que ele colocou um vídeo relembrando nossos lindos dez anos de casada. Foi bom porque pude extravasar num choro toda aquela tensão. Ele ficou muito satisfeito. Tinha alcançado seu objetivo. Eu não sabia ao certo porque chorava, mas estava muito tranqüila de saber que Victor jamais desconfiaria que o vídeo era o menor dos motivos. Sim, eu sou uma, uma, uma qualquer!!!!
Ele colocou tudo lá. Algumas fotos do namoro, e isso transcende os dez anos. Noivado. Casamento. Lua de mel. O nascimento dos nossos filhos. Nossos cachorros. As coisas realmente importantes e, devo confessar, soube escolher muito bem a trilha sonora.
Victor ainda consegue me surpreender, mas por que então eu fiquei tão eufórica em encontrar esse cara que eu nem conheço mais e nem sei se um dia eu realmente conheci?
Não comentei nada com ninguém. Respirei fundo e resolvi curtir a festa. Paula, Raquel, Juliana e Pietra vieram. Fizemos nosso brinde dos tempos da faculdade e pudemos rir muito relembramos as tantas festas a que fomos juntas. Lembrar de quando pensávamos nas coisas que faríamos só para ter histórias para contar para os netos. Mas que, por enquanto, não ousamos nem mesmo contar para os nossos filhos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 5

PARTE 4

Não sei se foi o início da primavera, mas tenho me sentido mais animada e estou empolgada com a história das bodas. Acho. Acho sim tudo um grande teatro social, mas sempre gostei de teatro mesmo, não desse tipo, é verdade, mas às vezes é importante saber se divertir com o que se pode ter, então estou tentando me divertir.
É, nem tudo é divertido. Só de pensar em organizar tudo já fico cansada. Mas olho pra minha família e vejo que tenho muito que comemorar. Foram dez anos incríveis. Construímos muita coisa juntos. E nossos filhos, apesar de ter hora que eu tenha vontade de espremer um na mão, eles são a maior riqueza que eu poderia ter na vida. E eles estão numa empolgação só.
É engraçado vê-los querendo saber como Victor e eu nos conhecemos, e o ideal romântico deles ainda completamente arraigado às conveniências sociais. “E aí você ajoelhou e pediu a mamãe em casamento, papai? A Júlia perguntou. Se ela soubesse que ficamos noivos mais bêbados que gambás numa aposta de pôquer entre amigos.
Mas Victor com aquele olhar sarcástico dele, que criança ainda não percebe, “Sim, Júlia, comprei um anel caríssimo pra sua mãe, colhi flores do campo, peguei um cavalo branco e fui até a casa dela pedi-la em casamento.” Caímos na gargalhada. As crianças não entenderam, mas riram juntas. E o Pedrinho, tão ingênuo: “E o que você fez com o cavalo quando a mamãe disse sim?” “Ele fugiu!”. E nesse momento conquistamos aquela cumplicidade no olhar que eu nem lembrava que tínhamos.
Foi besteira minha dizer que não sabia se o amava. É que agora é tudo diferente. Depois de dez anos as coisas mudam e é difícil acompanhar a mudança no ritmo que a vida está.  Olhá-lo inventando histórias de conto de fadas sobre a gente para as crianças, brincando com os cachorros. Não podia ser melhor. É, podia. [risos] Ele poderia se lembrar que eu não gosto dos pães moreninhos, mas ok, ninguém é perfeito.
Você notou, né? Ele não incomoda mais meu tempo com você. Expliquei a ele que eu preciso desse tempo. Não contei do nosso “caso”, lógico. Não que ele fosse ter ciúmes de um espelho, mas gosto de pensar que tenho um segredo. O quê? O primo da Guida? Isso não é um segredo efetivo porque não aconteceu nada. Não tenho a menor culpa se ele lança olhares carnívoros sobre mim. Então agora eu preciso contar a ele sobre cada cara que me olha mais incisivamente?
Talvez essa onda de bom humor, com direito até a contos de fadas, seja fruto de uma grande bola fora dele. Ele teve a pachorra de me perguntar se eu queria colocar silicone de presente de bodas!!!!!!! Como assim?!?!?
Olhei fixamente para ele e disse “QUÊ?!?!?!?!?!?!?”
Ele deve ter achado que eu estava muito feliz com o presente e me disse sorrindo: “Se você quiser, eu pago. Fechei um negócio muito bom essa semana na empresa...” Nem o deixei terminar “Ah então você não está satisfeito? Quer uma dessas mulheres turbinadas com 500 ml de silicone, é isso? Porque se for isso, pode ir procurar uma dessas mulheres frutas que se você espremer vaza silicone por todos os poros...” Não sei por que tive essa reação, mas ele nunca mais tocou no assunto.
E olhando bem, talvez eu não precise mesmo. Acho um horror não saber envelhecer. Sempre disse que queria ser uma quarentona jovem, mas consciente de que era uma quarentona.
Lógico que fiquei encanada. Será que ele está insatisfeito? Por que qual outro motivo de um marido oferecer um par de silicones para a esposa? Pensei nisso por uns 3 dias sem parar. Comentei na terapia. Contei para minhas amigas. E ainda não cheguei a uma conclusão convincente do que isso possa significar.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 4

PARTE 1

Resolvi me pesar hoje. 2 quilos mais gorda! Não adianta ficar aí, como quem diz, eu estava te mostrando! E quanto mais gorda, mais vontade de comer, parece que meu estômago dilatou e tenho a sensação de que comeria o mundo aos bocados!

O que? Se estou triste? Não. Nem triste, nem feliz. Outro dia o Victor me chamou de apática porque disse que ele poderia escolher os sabores da pizza. Então eu sou apática porque ele não consegue mais fazer isso sozinho?!?!?!?!?!?!

Mas talvez ele tenha razão. Não pela pizza, óbvio. Mas eu engatei mesmo uma 5ª marcha na vida e tenho percorrido por muita coisa sem perceber e esquecer uma reunião de pais me fez ligar o alerta vermelho. Que tipo de mãe esquece a reunião de um filho, me diz? Não, não me diz! Meu terapeuta veio com uma história de ato falho. Disse que esqueci pela necessidade de tirar umas férias para mim. Tive vontade de mandá-lo a merda! Aquele olhar de “hummm, fale mais sobre isso”, como se fosse capaz de interpretar tudo.

Ah é, ñ tinha te dito, né? Estou visitando um terapeuta regularmente! Deveria ter escolhido fazer academia ao invés de terapia, mas apoiada pelo “Todo dia enfrente pelo menos uma coisa que te meta medo de verdade” lá fui eu encarar um psicoterapeuta. Conselho da Guida que acha que eu preciso colocar as ideias no lugar para passar por essa crise que se instaurou na minha vida. E então descobri que minhas amigas acham que estou em crise. Ótimo.


O que eu achei de lá? Achei tudo muito esquisito, lógico. Sim, fui de óculos escuros e uma roupa que não costumo usar muito para não ser reconhecida no caso de encontrar mais alguém que tenha recorrido a conselhos freudianos. Não sei se gostei, mas saí um tanto quanto mais confusa do que entrei, e cheguei a conclusão de que se a terapia não me enlouquecer, eu saio dessa “crise” em que todos resolveram me colocar!

Pele opaca e manchinhas, adeus! Amanhã vocês serão varridas desse rostinho. Pois é, vou experimental o tal do peeling. “Peeling, eu? Nunca!” Quanta incoerência!



Quer saber? Estou me dando o direito de ser incoerente. Sim. Sempre fui muito certinha. Segui rigorosamente a todos os clichês socialmente aceitos. Até apaixonada por professor no colegial eu fui. Me achava muito malandrona, e hoje não consigo pensar em nada mais piegas pra idade.


Ao menos a minha crise conjugal não aconteceu no fatídico 7º ano de casada. Às vésperas de bodas de pérola, temo que completar dez anos seja mais difícil que completar sete, como dizem.

Sim, Victor é um cara bacana, não tenho dúvida. Bom marido, até onde sei. Ótimo pai. E só por isso já valeu a pena. Mas já que resolveram me colocar numa crise, talvez eu esteja em crise com os clichês, que sempre detestei. Buquê de rosas vermelhas! Nãããão! Sou mais florzinhas colhidas pela rua com bilhetinho romântico no estilo Domingos de Oliveira. E como depois de dez anos ele ainda não sacou isso?


Isso sem contar nos pães moreninhos. Às vezes acho que ele faz pra me irritar. Nos bons momentos ele diz que fico linda irritada. Acho bonitinho quando ele fala isso. Mas fico enlouquecida em como ele é capaz de me irritar!

Sabe que estou me acostumando com as luzes. Já pensei até em retocá-las. Ou, de repente, tentar o loiro mesmo. Essa ideia ainda transita na minha cabeça em crise. Quem sabe para comemorar as bodas de pérola. Se chegarmos lá...

Victor tem grandes planos. Diz que quer fazer uma segunda Lua de Mel. E talvez seja disso que eu tenha medo. De me ver ali com ele novamente, como um casal com o compromisso de se amar por uma semana e mais nada. Pauta para a próxima terapia.

sábado, 21 de agosto de 2010

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 3

Grrrrrrrrrrrrrrrrr!!! Que ódio!!! Ah eu sei que não é bom cultivar sentimentos negativos. Mas esse eu fui obrigada a cultivar praticamente em nome de regras sociais. Diplomacia.


Encontrei com a Sueli no shopping hoje. Mero a caso. Uma plástica a mais no rosto, cabelo alisado, mais curto agora, mas a mesma falsidade de sempre. Como pode?


O fingimento de sempre: “Cláudia, querida!!! Que saudade de você! Está sumida!”. Pois é, há tempos parei de estudar répteis e então não tenho mais porque visitá-la.


Não, não disse isso, lógico. Minha necessidade de mostrar que, apesar de todos os seus joguinhos para se promover às minhas custas na empresa, eu estava ótima, trabalhando, casada, com dois filhos ótimos, morando muito bem e ainda com meus cachorros – que ela detesta! – me fizeram ser aquela Cláudia recém-formada de sei lá quantos anos atrás – não quero pensar nesse número agora! – e falar interruptamente até quase perder o fôlego. Policiando-me para manter um sorriso no rosto que quase me deixou com câimbra e que deve ter ajudado a formar essa ruguinha nova aqui no canto. Droga!


Nossa! Sabe que talvez seja bom mesmo eu começar a pensar com mais carinho na história do peeling. Pego um feriadão e fico descascando em casa. Minha pele está um horror! Minhas amigas diriam que é falta de sexo.


Mas quer saber, no fim dos beijinhos e do cordial “Apareça!” me bateu uma tristeza. Não mais pela Sueli que já é página virada na minha vida há anos, mas por ficar imaginando quantas “Suelis” mais, ainda encontrarei na minha vida. Pessoas falsas que irão me encantar com um sorrisinho e um jeito amigo de ser e que no fundo é pura falsidade. Ai Espelho, eu realmente cultivo uma fé quase inabalável no ser humano, mas essas coisinhas...


É, eu sei, também encontrei muita gente bacana! Muita mesmo! A Mariá que me apresentou o Victor quando eu estava na maior fossa depois de um amor mal resolvido de 5 anos. Achava que ia morrer solteira e a Mariá, uma colega do trabalho que eu não tinha lá muita consideração por julgar muito pudica, na época me falou que tinha um amigo muito interessante para me apresentar, que ela achava mesmo que poderia dar certo. Desacreditei na mesma hora. Amigo da Mariá? A quase beata que acha um absurdo sexo casual, e festas regadas a álcool de vez em quando? Deve ser um cara chato, enfadonho, todo certinho. Não, obrigada. Tudo o que eu queria era o cara torto, que me desmontava com um olhar, capaz de me fazer cometer loucuras... mas a idade já avançava e eu não me permitia mais um caso tão fugaz e então Mariá foi insistente em querer me apresentar seu amigo “enfadonho”. Foi ela também a amiga que me levava caixas de lenços no almoxarifado quando eu desaparecia por muito tempo após uma ligação estranha. Foram muitas caixas. Muitas.


Sabe, Espelho, eu até sinto saudade dessa fossa. Primeiro porque a história foi incrível. Dessas de cinema, que eu jamais imaginaria viver, e depois porque esse sofrimento todo, por mais que eu fizesse todo aquele drama, dissesse que queria morrer, a sensação de estar viva era incrível, porque a latência da dor mostra o quão viva se está. Não, não sou masoquista. Mas sofrer por amor me fez mais humana e até, mais doce, talvez.


E no maior dos clichês me fez melhor para encontrar o Victor! Argh! Que coisa mais piegas! Mas no fim é verdade. Fui resistente no começo. Muito. Estava certa de que alguma coisa errada ia acontecer, mas comecei a me permitir ficar encantada novamente. Ele tinha um jeito engraçado, mas também sério quando precisava. Gostava de música tanto quanto eu. Sabia que Dostoievski não era nome de vodka. Morava sozinho desde que se formou e tinha um pique de piada que se encaixava ao meu, e aí, bingo, o impossível aconteceu! Estava apaixonada de novo.


Mariá se sentiu vitoriosa, e por meses tive que ouvi-la repetir “eu te disse”; “eu falei que ele era perfeito pra você!”; “eu não sei por que você não acreditou em mim”. A partir daí Mariá passou a ter mais credibilidade comigo, tanto que foi madrinha de casamento. Não tinha como ser diferente, não é mesmo?


Mariá é daquelas pessoas que você acha que nunca vai ser sua amiga. Não tem absolutamente nada a ver comigo. Extremamente religiosa, nem palavrão fala. Casou aos 22 anos ainda na faculdade e tem 5 filhos porque é contra métodos anticoncepcionais. Acho que ficamos amigas mais por insistência dela. Brinco dizendo que ela veio pra tentar me endireitar e mesmo assim não teve jeito! [rs]


É espelho, o mundo aí fora é assim, cheio de Suelis, mas também com muitas Mariás, e te garanto elas são bem mais interessantes que Bruxa e Branca de Neve...



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

CONVERSAS COM O ESPELHO - PARTE 2

Hoje ele me perguntou o que eu tenho. O porquê de eu andar assim, tão nervosa. Nervosa? Então agora eu pareço nervosa. Quando nos conhecemos era “minha linda”; “meu amor”; “minha menina”. Que necessidade de usar pronomes possessivos! Isso deve ser trauma de infância. Filho do meio! Sempre ficou com as sobras do mais velho e via o mais novo ganhando coisas novas. Coitado.

Ah! Percebeu a mudança? O que foi? Não gostou? Eu disse que ia tingir! É, mas não tive coragem, só fiz luzes. Não quis ser tão radical. Odiei! Sei lá, eu gostava de dizer que era natural, que nesse corpinho era tudo meu e agora esse fios amarelos! Mas posso te contar uma coisa? O primo da Guida, eu juro que não procurei, foi um acaso, mas ele parece ter gostado, me olhou de um jeito que me deixou com as pernas trêmulas!!! Fico nervosa perto dele, acredita? Sei lá, me dá um frio na barriga... Isso me lembra os tempos de solteira, ah as paqueras...


Aliás, com esse cabelo assim, lembrei tanto da Raquel. A mais meiga da turma da faculdade. Bons tempos. Eu mudei muito desde o tempo da faculdade? Eu sei, você não mente! Ruguinhas e manchinhas ficaram mais nítidas desde aquela época...


Mas que saber? Lembro-me como se tivesse sido ano passado. A época da faculdade foi incrível. Foi lá que eu conheci a Paula. Ficamos tão amigas que choramos por uma tarde inteira juntas quando nos formamos. Sabíamos que dali pra frente ia ser tudo muito diferente, e olha que eu acho que não tínhamos a exata noção do quão diferente seria.


Lembro da Paula no primeiro dia que cheguei à Universidade. Achei que ela fosse biscate! [risos] Era só uma caiçara com uma calma invejável. Nunca briguei com ela! Embora aquela calma às vezes me tirasse do sério. Dividimos tantas histórias, tantos sonhos. Filosofamos em tantos botecos. Curtimos muitas festas universitárias, viagens, uma na casa da outra. Já com a Raquel, como a gente brigava!!! Mas não nos desgrudávamos. Aliás, estávamos sempre juntas, nós três.


O que foi? É, eu sei. Mudei mesmo. Claro que hoje não acho mais biscate usar short curto. Aliás, faz tempo que biscate nem faz mais parte do meu vocabulário. Outro dia ouvi uma menina dizendo piriguete. É assim que se diz agora, não é? Tem hora que me dá uma vontade de ser piriguete!!! Ah Espelho, sou casada, mas não estou morta! E não fiz nada com ele... O que é que tem? Ele me fez um carinho na perna, só isso. Achei inofensivo.


Ele me lembra um pouco aquele flerte da faculdade. O quê? Não se usa mais flerte? Tudo bem, ele me lembra aquele “ficante” da faculdade, o Trigo. Era o apelido dele. Nossa! Amassava um pão como ninguém! [risos] Não namoramos. Foi só um caso, desses que duram anos, mas que ninguém assume nada, ninguém se apaixona. Coisa da juventude! Se nos encontrávamos em alguma festa, acabaríamos a noite juntos com certeza!


Teve um dia que a Juliana brigou comigo por causa dele. Disse que não me deixaria mais ficar com ele. Coisa de bêbada. A gente ri até hoje disso. A Juliana e eu ficamos amigas mais tarde, na mesma época em que fiquei amiga da Pietra. Como nos divertimos juntas!!!


Com a Ju eu tinha uma cumplicidade de sentimentos e com a Pietra... Ah sei lá, a Pietra era de um companheirismo, pau pra toda obra mesmo e também a mais espivetada da turma. Animadíssima pra qualquer coisa. Qualquer festa, qualquer cervejinha...


Que saudade eu sinto delas. Sabe, Espelho, aquela fase foi tão intensa. Descobrimos tantas coisas, queríamos abraçar o mundo, vivemos cada festa como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, e não acabava. Ah e como era duro te encarar no dia seguinte. Você me apresentava aquela cara de panda e surgiam as lembranças da noite passada, ou pior, as vezes, não havia lembranças... [rs]


Mas o que é isso no meu queixo??? E isso é idade para eu ter espinhas ainda? “Hormônio, calma que é por causa dos hormônios, D. Cláudia”, minha médica me diz. Calma porque ela está sempre com aquela pele de bebê. “Tem que fazer peeling, D. Cláudia!” E ficar com a cara descascando por dias? Deixar que digam no escritório que estou trocando a pele como fazem as cobras? Jamais!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CONVERSAS COM O ESPELHO

Isso. Assim. Porque aquele outro ângulo não me privilegia muito chorando, e desse jeito fico até meio charmosinha... Nossa! Essa lágrima, do olho esquerdo, foi muito teatral! Um dia ainda quero fazer uma cena com uma lágrima escorrendo assim, desse jeito.



Você deve me achar louca, né? É você mesmo, Sr. Espelho, sempre aí pronto pra me jogar na cara todas as minhas imperfeições. Espinhas, cravos, manchas e as rugas que começam a surgir. Rugas!!! Há alguns anos eu mal sabia o que eram. Alguns anos... A quem estou tentando enganar? Ok, somos só você e eu mesmo... Há tantos anos trás. Parece-me que foi há tão pouco tempo.



O que? Como é que é? Ah! Eu sei, eu sei. A Branca de Neve é a mulher mais bonita! E eu lá quero competir com uma branquela que vai passar boa parte da vida cuidando de 7 anões e depois dormir até que o príncipe venha lhe dar o beijo do “desfeitiço”. Beijinho mais sem graça! Não. Não mesmo! Tratando-se de contos de fadas eu prefiro então ser a Chapeuzinho Vermelho, porque tem o lobo mau que a ouve e vê melhor, e ainda a come no final... Piadinha infame!



Que bom que você não me vê de corpo inteiro! Ia me achar uma baranga hoje! [E que bom se fosse só hoje!] Culote, celulite, estria... E essa bunda? Desde quando você está assim tão caidinha, meu bem? Essa minha fase down te afetou também, foi isso? Mas assim você não ajuda!!!



Você percebeu também, não foi? A falta de sincronia. Bunda down, cabelo up! Não, eu não posso sofrer tanto pra chorar, tem que ser mais interno, só uma lágrima melancólica, e aquela tremidinha no queixo. Ah a tremidinha no queixo é ótima. Transmite uma tristeza digna de piedade e ainda é super teatral, cinematográfica! Ah, eu deveria ter investido mais na carreira de atriz!



Acho que vou cortar o cabelo. É isso. Vou cortar. Corte radical. Vou pintar também... Um louro claríssimo desses que deixam qualquer babaca assanhado! Meu marido vai odiar, eu sei. Será que meus filhos vão me reconhecer? Quem sabe eu não chamo mais atenção que a mãe da Bia na reunião de pais. O professor de educação física só falta pular em cima do silicone dela!



Silicone! É isso! Já desenvolveram essa fórmula mágica que dá up em tudo! E o mais incrível: silicone no cabelo dá um “down”!!! A vida é mesmo muito contraditória! E eu me tornando cada vez mais incoerente! “Nunca vou colocar silicone porque a mulher tem que ser natural.” Isso só é verdade hoje porque um peito novo custa 4 mensalidades escolares... E eu tenho dois!



Mas olha assim, com os braços erguidos, Sr. Espelho, eles ainda estão legais, não estão? Na minha idade, tudo natural, com dupla jornada, marido, 2 filhos, cachorro... não sobra muito tempo pra academia. Vai, diz alguma coisa! Tenho certeza que aquela branquela nunca te mostrou os peitos!



Não sei se eu o amo. É isso, tive coragem de dizer. Não sei se eu ainda o amo! Dizem que quando as peculiaridades do dia a dia começam a incomodar demais é crise na certa. Como me irrita quando ele só traz pão “moreninho”. Nunca gostei de pão “moreninho”, cacete!



Divórcio? Tá louco? Quem falou em divórcio aqui? Não, deve ser só uma crise. É verdade que tive vontade de me entregar aos encantos do primo da Guida na semana passada. 31 anos. Nunca achei que homem mais novo fosse me interessar. Não. Nunca traí! Se tenho vontade? Não sei se é bem uma vontade, talvez seja só uma fantasia.



Ah não! Cacete! Esse grito perguntando se já saí do banho me irrita! Eu sei, foi pouco tempo hoje, né? Eu também gosto muito de ficar aqui com você, exceto quando você me joga todos os defeitos na cara. Tem que ser mais bonzinho de vez em quando, poxa. Bom, melhor ir pro banho logo antes que desconfiem do nosso caso.

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