Para que serve a utopia?

"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CONVERSAS COM O ESPELHO

Isso. Assim. Porque aquele outro ângulo não me privilegia muito chorando, e desse jeito fico até meio charmosinha... Nossa! Essa lágrima, do olho esquerdo, foi muito teatral! Um dia ainda quero fazer uma cena com uma lágrima escorrendo assim, desse jeito.



Você deve me achar louca, né? É você mesmo, Sr. Espelho, sempre aí pronto pra me jogar na cara todas as minhas imperfeições. Espinhas, cravos, manchas e as rugas que começam a surgir. Rugas!!! Há alguns anos eu mal sabia o que eram. Alguns anos... A quem estou tentando enganar? Ok, somos só você e eu mesmo... Há tantos anos trás. Parece-me que foi há tão pouco tempo.



O que? Como é que é? Ah! Eu sei, eu sei. A Branca de Neve é a mulher mais bonita! E eu lá quero competir com uma branquela que vai passar boa parte da vida cuidando de 7 anões e depois dormir até que o príncipe venha lhe dar o beijo do “desfeitiço”. Beijinho mais sem graça! Não. Não mesmo! Tratando-se de contos de fadas eu prefiro então ser a Chapeuzinho Vermelho, porque tem o lobo mau que a ouve e vê melhor, e ainda a come no final... Piadinha infame!



Que bom que você não me vê de corpo inteiro! Ia me achar uma baranga hoje! [E que bom se fosse só hoje!] Culote, celulite, estria... E essa bunda? Desde quando você está assim tão caidinha, meu bem? Essa minha fase down te afetou também, foi isso? Mas assim você não ajuda!!!



Você percebeu também, não foi? A falta de sincronia. Bunda down, cabelo up! Não, eu não posso sofrer tanto pra chorar, tem que ser mais interno, só uma lágrima melancólica, e aquela tremidinha no queixo. Ah a tremidinha no queixo é ótima. Transmite uma tristeza digna de piedade e ainda é super teatral, cinematográfica! Ah, eu deveria ter investido mais na carreira de atriz!



Acho que vou cortar o cabelo. É isso. Vou cortar. Corte radical. Vou pintar também... Um louro claríssimo desses que deixam qualquer babaca assanhado! Meu marido vai odiar, eu sei. Será que meus filhos vão me reconhecer? Quem sabe eu não chamo mais atenção que a mãe da Bia na reunião de pais. O professor de educação física só falta pular em cima do silicone dela!



Silicone! É isso! Já desenvolveram essa fórmula mágica que dá up em tudo! E o mais incrível: silicone no cabelo dá um “down”!!! A vida é mesmo muito contraditória! E eu me tornando cada vez mais incoerente! “Nunca vou colocar silicone porque a mulher tem que ser natural.” Isso só é verdade hoje porque um peito novo custa 4 mensalidades escolares... E eu tenho dois!



Mas olha assim, com os braços erguidos, Sr. Espelho, eles ainda estão legais, não estão? Na minha idade, tudo natural, com dupla jornada, marido, 2 filhos, cachorro... não sobra muito tempo pra academia. Vai, diz alguma coisa! Tenho certeza que aquela branquela nunca te mostrou os peitos!



Não sei se eu o amo. É isso, tive coragem de dizer. Não sei se eu ainda o amo! Dizem que quando as peculiaridades do dia a dia começam a incomodar demais é crise na certa. Como me irrita quando ele só traz pão “moreninho”. Nunca gostei de pão “moreninho”, cacete!



Divórcio? Tá louco? Quem falou em divórcio aqui? Não, deve ser só uma crise. É verdade que tive vontade de me entregar aos encantos do primo da Guida na semana passada. 31 anos. Nunca achei que homem mais novo fosse me interessar. Não. Nunca traí! Se tenho vontade? Não sei se é bem uma vontade, talvez seja só uma fantasia.



Ah não! Cacete! Esse grito perguntando se já saí do banho me irrita! Eu sei, foi pouco tempo hoje, né? Eu também gosto muito de ficar aqui com você, exceto quando você me joga todos os defeitos na cara. Tem que ser mais bonzinho de vez em quando, poxa. Bom, melhor ir pro banho logo antes que desconfiem do nosso caso.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A ALEGRIA NA TRISTEZA

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.
O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.
Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.
Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.
Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Martha Medeiros

domingo, 25 de julho de 2010

QUERIDO DIÁRIO,

É impressionante como com o tempo passamos a enxergar tudo de maneira diferente, e não é em função da miopia que aumenta, é a leitura do mundo que muda. Mudam os filmes. Quero dizer, os filmes mesmos não mudam, continuam lá com as mesmas personagens, com o mesmo enredo e a mesma trilha sonora, muda o nosso olhar sobre a obra, e isso faz toda diferença.

Quando vi pela primeira vez “De repente é amor” não gostei. Fugia da minha ideia de romance ideal. Boba. Uma adolescente que ainda achava que o amor obedecia a regras estabelecidas: 1º encontro, namoro, noivado, casamento... Tudo conforme manda a etiqueta. Bobagem!

Não que eu tenha passado a acreditar que o amor possa acontecer de um sexo casual num banheiro de avião, mas por que não? Vai saber...

O que acredito agora é que não existe regra nenhuma, e se existem, estão aí para serem quebradas, e se você consegue arcar com a ressaca moral, quebre-as! No fim o que vale mesmo a pena são as histórias para contar para os netos, mesmo que com um pouco mais de fantasia...

Filmes hoje? Menos comédias românticas, mais suspenses e dramas, alguns cults e documentários... Minha lista de prediletos inclui: “Sociedade dos Poetas mortos”; “A vida de David Gale” (inteligentíssimo!); “O Clube do Imperador”(tocante!); “O sorriso de Monalisa” (inspirador); “Escritores da Libertade” (Excelente!!!); “Em boa companhia” (porque foi o primeiro filme que vi sem final clichê); “Sicko” (ah os estadunidenses são tão alienados!); “Coach Carter”; “Pride: Orgulho e Preconceito”... ah e por aí vai...

“De repente é amor”? Não, não faz parte dos meus prediletos, apesar de ter cenas que adoro! Mas aí poderia incluir outros tantos títulos e aí sim, muitas comédias românticas... Muitas das quais, provavelmente eu deteste dentro de algum tempo, ou passe a gostar ainda mais, porque amor é assim, não se ama sempre igual. Hoje se ama mais que ontem e menos que amanhã... é o que dizem, não sei.




E a linearidade na minha escrita vai muito bem para uma acadêmica.... Ãhã!






Mírian Lúcia Gonçalves

terça-feira, 20 de julho de 2010

TEM PREÇO?


Quanto deve valer o compromisso que se tem com a sua verdade, com sua crença?
Isso é mensurável?

Quanto vale passar por cima dos próprios valores para sobreviver nesse mundo de capitalismo selvagem?

Pode valer o sonho, o idealismo?

Qual a medida entre o aceitável e o intolerável no historicamente possível?

E aquele papo do beija-flor no meio do incêndio na floresta... Será que vale mesmo a pena? Será que no fim ele não morreu carbonizado?

Há lugar para esse beija-flor no mundo? Parece-me que o espaço está reservado para as grandes feras capazes de atacar suas presas sem qualquer piedade e que ao sinal do incêndio correm num gesto claro de egocentrismo.

A Educação deveria ter como atores somente beija flores, mas, infelizmente, há na área muitas feras digladiando-se por motivos dos mais banais...

E então, qual o valor do compromisso pra entrar nessa luta?


Um homem culto e um homem diplomando são duas coisas, infelizmente, bem diversas entre nós.
Anísio Teixeira, 1998




segunda-feira, 19 de julho de 2010

“Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação”.




Clarice Lispector

sábado, 17 de julho de 2010

VERGONHA NACIONAL

Uma criança morreu na escola, dentro de uma sala de aula, vítima de uma bala perdida! Mais uma...

E os brasileiros ainda ficam indignados ao verem as guerras mundo a fora...

Na mesma cidade, a Ponte Rio-Niterói é fechada para que o “Grande Cani” possa fazer um dos seus 10 saltos mais perigosos, mobilizando equipe técnica, bombeiros, mergulhadores para destruir uma moto! PRA QUÊ?!?!?!?!?!?!?

Que país é esse?!?!?!? Então um cara resolve mostrar o quão bom é pulando, e para isso inviabiliza o trânsito entre duas cidades, mobiliza dezenas de pessoas, detona uma moto (que muitos brasileiros demorariam anos para quitar!) e ainda ganha dinheiro pra isso? Juro que quero me convencer do contrário, mas por enquanto só consigo ficar indignada com tamanha bobagem!

Entendo que isso nada tem a ver com o fato das balas perdidas no Rio, mas não entendo como o Governo pode autorizar que se feche uma ponte com a importância que tem a Ponte Rio Niterói para um circo desse acontecer, e não consiga fazer nada em relação a segurança!!!

Precisa-se, nesse momento trágico, a clareza de que segurança não é mais polícia na rua, não é mais cadeia. Segurança é EDUCAÇÃO! Educação de qualidade, EDUCAÇÃO crítica capaz de emancipar cidadãos éticos e responsáveis pela construção de uma sociedade mais justa.

Não dá mais!!! Não dá pra engolir, para ver essas notícias, se emocionar com pais em estado de choque, com as lágrimas de uma mãe e ponto final...

Até quando??? Quantas vítimas ainda serão necessárias para que se faça alguma coisa?

Será mesmo que estou tão errada assim? Ou é o mundo que está ao contrário e ninguém reparou?

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