Para que serve a utopia?

"A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, para caminhar!"
Fernando Birri (diretor de cinema)
http://www.youtube.com/watch?v=Z3A9NybYZj8

sábado, 28 de maio de 2016

Sobre gênero e cultura do estupro



Talvez eu seja repetitiva. Já escrevi antes sobre o tema aqui, mas infelizmente, pelo cenário que vivemos é sempre bom retomar o assunto. Para começar é importante deixar claro que não há uma “Ideologia de gênero”, a não ser que estejamos tratando da ideologia presente na sociedade: machista, homofóbica e misógina, tendo em vista que tudo é ideologia.

O que tem gerado debates acalorados nos últimos tempos refere-se às “questões de gênero”, estudos científicos que explicam como a concepção do que é ser mulher e do que é ser homem é construída socioculturalmente. De forma simples, para ilustrar isso, basta observar como os papéis socialmente determinados para homens e mulheres são diferentes em diferentes culturas. Como seria se você tivesse nascido na Índia, por exemplo?

A ideia de que há uma ideologia de gênero que pretende ignorar o sexo biológico e incentivar a homossexualidade é de um disparate sem tamanho de parte de grupos religiosos que não sei se por desconhecimento ou canalhice, ignoram como o desenvolvimento humano se dá em sociedade e não apenas por uma estrutura biológica. Além do mais, se fosse a ideologia responsável pela homossexualidade não teríamos homossexuais, uma vez que a ideologia dominante é machista e homofóbica. É loucura pensar que alguém escolheria por esse caminho na sociedade preconceituosa que temos.

Trabalhar questões de gênero nas escolas significa dizer as crianças que o sexo biológico não deve ser um determinante social para as escolhas e atuações sociais. Significa dizer que meninos podem chorar, podem dançar balé, caso desejem, significa dizer a eles que o corpo das meninas é particular e não pode ser tocado sem consentimento, nunca. Não importa a roupa. Não importa o local. Não importa se ela bebeu. É educar para o entendimento de que não é não. Parece óbvio, mas as estatísticas nos mostram que não é.

Trabalhar as questões de gênero significa dizer às meninas que elas podem ser jogadoras de futebol, ser engenheiras e que tarefa doméstica não é sinônimo de trabalho feminino. É educá-las para serem donas do seu corpo e livres para o prazer se assim o quiserem.

É dizer às crianças que homossexualidade é normal, que existem casos na natureza, que sempre existiu na história da humanidade e que essa orientação não faz alguém melhor ou pior que ninguém.

Para mim também é difícil entender porque alguém em nome de Deus, no nosso estado laico, trabalha no sentido de eliminar essa discussão, perpetuando preconceitos que causam vítimas diariamente, como a última barbárie que – pouco – vimos nos noticiários: Jovem estuprada por 30 homens passa por perícia médica. Uma menina – Bia. 30 homens. Uma vingança. Uma monstruosidade. E nenhum, NENHUM repensou e quis parar essa monstruosidade. Essa é a cultura do estupro que denunciamos cotidianamente no feminismo, mas que o machismo reinante busca deslegitimar e, pior, culpabilizar a vítima.

Enquanto isso, Frota, estuprador confesso, em tom de piada, em rede nacional, encontra-se com o novo ministro da educação para propor um ensino sem ideologia, que traduzido em linhas claras nada mais é que manter as ideologias tais como são: machistas, homofóbicas e misóginas.

Opor-se a isso é lutar para que não lamentemos por mais nenhuma Bia.




Publicado originalmente em: Jornal Novo Contexto

Jornal Novo Contexto impresso

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Normal é ser diferente


E para completar o dia: Patrícia Abravanel resolve falar o que acha sobre o "homossexualismo". Pra começar, se soubesse um pouco sobre o assunto, saberia que o termo usual atualmente é homossexualidade. Não há homossexualismo* simplesmente porque não há doença em sentir atração sexual pelo mesmo gênero.

Disse a moça: "Eu não sou contra o homossexualismo, mas sou contra falar que é normal." 

Ora, o que é normal? Todas as evidências encontradas na natureza selvagem de relações homossexuais, são o que? O que é anormal mesmo é alguém com tão pouco conhecimento sobre gênero ser compartilhada como se fosse uma sábia contemporânea. 

Sim, gênero, essa construção social em cima do sexo biológico que nos força a ser como somos. Para quem desconsidera o papel da cultura, faz um exercício e pensa por um minuto como seria se vc tivesse nascido e vivido sob a influência cultural da Índia, por exemplo. Vale ainda assistir ao Enigma de Kaspar Houser. ‪#‎ficaadica‬ 

Anormal para mim é proferir tanta bobagem e achismo em tom de sabedora. Pessoas com possibilidades materiais e intelectuais de romper com o senso comum, mas que parecem se esforçar para parecerem ignorante e, pior, bradar a ignorância em tom de orgulho.
"Eu não sou contra a ignorância, mas sou contra falar que é normal".

* o termo ficou fortemente ligado ao conceito patológico da medicina que só foi retirado em 1990 da lista de distúrbios mentais pela Organização Mundial de Saúde. Portanto, para buscar mudar a visão de pessoas como Patrícia Abravanal, usa-se atualmente o termo homossexualidade, como que para limpar o passado turvo que via nas diferenças uma patologia. 

sábado, 14 de maio de 2016

A utilidade do inútil



Copiei o título do livro de Nuccio Ordine, professor de literatura na Universidade de Calábria (Itália) para contrapor a fala do governador Geraldo Alckmin (PSDB) que criticou a Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), principal órgão de financiamento ao desenvolvimento da ciência no Estado, por priorizar estudos – segundo ele – sem utilidade prática. Para Alckmin:

“Gastam dinheiro com pesquisas acadêmicas sem nenhuma utilidade prática para a sociedade. Apoiar a pesquisa para a elaboração da vacina contra a dengue, eles não apoiam. O Butantã sem dinheiro para nada. E a Fapesp quer apoiar projetos de sociologia ou projetos acadêmicos sem nenhuma relevância”

Entretanto, para Nuccio Ordine a prática utilitarista coloca em risco a cultura, a criatividade, as instituições de ensino e ainda os valores fundamentais como a dignidade humana o amor e a verdade. Para o autor “não é verdade – nem mesmo em tempos de crise – que só é útil o que produz lucro ou tem uma finalidade prática. Existem saberes considerados “inúteis” que são indispensáveis para o crescimento da humanidade. Útil, portanto, é tudo aquilo que nos ajuda a termos uma vida mais plena e um mundo melhor.

O absurdo da fala do governador é tamanho que questiono se foi feita por ignorância ou má fé e, pela posição que ocupa, não sei o que seria pior. De repente, é ainda um misto das duas coisas. Estarrecedor.

Ora, o que ele chama de pesquisas “sem utilidade prática para sociedade” são as necessárias pesquisas básicas que, como o próprio nome diz, é a base que fundamenta as descobertas que desenvolver a criatividade, mudam paradigmas, transformam a forma como vemos o mundo e, por fim, acabam por levar a descobertas com a requerida utilidade prática. Imagina se houvessem desconsiderado a teoria da relatividade de Einstein pela exigência de que esta deveria ter uma “utilidade prática”? Sorte de Einstein não depender de financiamento da FAPESP, não?

Para entender a importância da pesquisa básica em “utilidades práticas” é preciso compreender em primeiro lugar que o tempo da ciência não é o mesmo tempo da vida cotidiana. Uma pesquisa, a princípio sem utilidade alguma, após anos de estudos acaba por impulsionar novas pesquisas que impulsionam outras até que se chegue a uma utilidade prática, mas isso pode levar anos, décadas, até séculos.

Os veículos automotores tal qual usamos hoje, por exemplo, têm o sistema de frenagem desenvolvido a partir das descobertas sobre a mecânica baseada no princípio de inércia (1643) de Descartes e Newton e o sistema de combustão desenvolvido a partir das teorias de equilíbrio químico (1789) de Antoine-Laurent Lavoisier que proporcionaram pesquisas sobre a combustão. Na biologia, as famosas ervilhas de Mendel (1865) desenvolveram as leis da hereditariedade que proporcionaram o desenvolvimento da tecnologia em genética e biologia molecular que resultaram na criação de vacinas, medicamentos e terapia gênica, por exemplo.

Ou seja, é de uma ignorância inaceitável que um governador faça uma crítica que não tem razão de ser simplesmente porque pesquisa básica e pesquisa aplicada não são divergentes, mas complementares dentro do sistema de desenvolvimento do conhecimento científico e humano. Conhecimento este que se desenvolve para o bem e para o mal. Não fosse a pesquisa científica, não teríamos a bomba atômica e seu poder altamente destruidor.

Tendo a concordar com Alckmin quando o mesmo diz sobre a não aplicabilidade das pesquisas sociais. Não que as pesquisas não tenham essa tão requerida utilidade prática. Muitas a têm. O que acontece é que, de forma geral, a universidade é o local de vanguarda em que se discute temas que não encontram ressonância em uma sociedade que, por termos políticos como Alckmin, luta para manter o status quo, não aceitando mudanças de paradigmas sociais.

Assim, o governador segue ignorando as pesquisas sobre Educação que mostram evidências que o sistema de bonificação ao professor não resulta em melhoria na qualidade de educação. Ignora as pesquisas que mostram que boa educação se desenvolve com infraestrutura adequada, salas com número reduzido de estudantes, bons salários e formação continuada de qualidade aos docentes. Ao invés disso, segue fazendo a sua “reorganização” em etapas, fechando e superlotando salas. Ou seja, não é que as pesquisas em Ciências Sociais e Humanas não tenham utilidade prática, é que sua utilidade é ignorada por quem tem como interesse deteriorar a educação pública até que o clamor popular seja favorável à privatização do sistema público de ensino.

A fala de Alckmin é mais um, dentro dos diversos ataques que vem sofrendo a Educação: cortes de verbas; salários baixos sem aumento real aos professores; falta de merenda escolar adequada e, agora, essas afirmações que buscam deslegitimar as pesquisas que fazem das universidades um espaço privilegiado de produção do conhecimento humano, e tentam ainda ser a resistência a um sistema que coloca o mercado como redentor de todo mal humano. Mercado responsável pela exploração do trabalhador que não recebe o suficiente para adquirir os bens produzidos por ele.

Não faço aqui uma defesa cega de toda e qualquer pesquisa. Imagino que um levantamento criterioso pode levar a dados que apontem uso de financiamento para pesquisas de fato com pouca relevância, mas quem e como se define o que é relevante? Em 1905, enxergaríamos relevância nas pesquisas de Einstein?

Talvez – hipótese – a não percepção da “utilidade do inútil” esteja apenas nos olhos limitados de quem as observa.


Publicado no Jornal Novo Contexto em 14/05/2016

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Dias das mães na escola. Como e por quê?



Dia das mães chegando. Propagandas a todo vapor na TV, rádio, jornais, internet. Mães retratadas com lindas modelos brancas, cabelos longos e magérrimas que deixam uma lágrima escorrer cenograficamente ao elogio seguido do presente da criança mais amorosa do mundo.

Propaganda com famílias ao estilo “comercial de margarina” na maioria esmagadora do marketing feito para vender. Mamãe, papai, dois filhos e um cachorro. Capitalismo é sobre isso: vender.

O problema é quando a escola incorpora também as datas comemorativas no mesmo espírito. Dentro do viés capitalista, se preocupa em oferecer presentes, muitas vezes com solicitação do envio de dinheiro para as mães que acabam por pagar o “presente oferecido” pela escola; as mais tradicionais seguem na linha das lembrancinhas confeccionadas artesanalmente que, na educação infantil, na maioria das vezes, acaba por sobrecarregar as professoras e professores porque exigem uma perfeição diferente da perspectiva das crianças pequenas. O que as mães acabam ganhando é uma lembrancinha realizada a horas de sonos perdidas pelas professoras das crianças.

Para além do viés capitalista, a escola ainda reproduz esse sistema de valores que considera como família apenas pai, mãe e filhos, ignorando que 50,6% das famílias brasileiras são compostas das mais diversas maneiras e não no perfil “comercial de margarina”. É uma violência simbólica para uma criança que não tem mãe ficar trabalhando durante uma semana um tema que, da forma como é tratado, pouco, para não dizer nada, tem de pedagógico. As professoras bem-intencionadas vêm ao socorro e dizem: faz para quem cuida de você. Então para que dia das mães na escola?

É inadmissível que em pleno século XXI as escolas não se valham destas datas para levantar e problematizar questões contemporâneas. Há em curso na câmara dos deputados a votação da lei que define família exclusivamente como a união conjugal formada entre o homem e a mulher. Ignora-se com essa lei os dados levantados pelo IBGE que incluem as mais diversas formações familiares que representam nossa sociedade tal como é contemporaneamente. Ignora-se os 16,2% de famílias formadas por mulheres com filhos com ou sem parentes; os 2,4% de famílias formadas por homens na mesma situação. As famílias com dois pais ou duas mães. Se a lei for aprovada essas e todas as demais formações familiares podem enfrentar problemas na busca por direitos como plano familiar de saúde, por exemplo.

Aquela mulher abandonada pelo pai biológico não será considerada família junto ao seu filho e, portanto, ele não terá direito ao plano de saúde da mãe. No entanto, a escola ao invés de levantar esses debates, continua no seu lugar de obediência ao status quo de apenas reproduzir comportamentos que excluem uma parcela significativa da sociedade. Ignora possibilidades riquíssimas de trabalhos pedagógicos. Por que não falar de gênero? Sim, porque no dia das mães, a quem sobra a tarefa de lavar a louça depois da festa de homenagem a ela? Por que cabe às mães a tarefa de tripla jornada?

Em tempos obscuros como o que vivemos, o óbvio precisa ser dito: não sou avessa ao dia das mães, muito pelo contrário, mas sei que a comemoração desta cabe ao âmbito familiar. O que levanto aqui é sobre qual o papel da escola ao trabalhar datas comemorativas como essa e tantas outras que causam mais transtornos que aprendizagem aos estudantes.

Lógico que é também papel da escola tratar de questões culturais construídas ao longo da história pela humanidade, mas sabendo que o currículo não é neutro, vale sempre questionar por que a escolha de algumas datas em detrimento de outras. Questiono também as metodologias para o trabalho das datas; mais problemática que as comemorações são as formas escolhidas para fazê-las. Não é estranho que as escolas comemorem mais o dia das mães ou dos pais que o dos professores?

Aos que defenderão a data pela possibilidade da aproximação entre família e escola, respondo prontamente que esta deve acontecer pela construção de espaços, como os conselhos de escola, que sejam de fato participativos. Espaços em que as famílias possam compreender as escolhas pedagógicas e participar na construção dos currículos a serem desenvolvidos.

Uma boa forma da escola homenagear as mães, sem deixar de lado sua tarefa pedagógica, é fazer do seu trabalho um instrumento de reflexão que auxilie a romper com atitudes que ainda hoje deixam as mães sobrecarregadas nas suas triplas jornadas dentro de uma estrutura machista que faz das mães Cinderela no segundo domingo de maio, mas que no dia-a-dia trata-a como a serva que deve ser bela, recatada e do lar.

Texto publicado originalmente em 29/04 em Jornal Novo Contexto on line e Novo contexto impresso


domingo, 24 de abril de 2016

Escola sem ideologia. Qual?

Está em discussão na Câmara dos Deputados dois Projetos de Leis que vêm sendo conhecidos popularmente como “Escola sem Ideologia” e “Escola sem partido” de autoria dos deputados federais: Rogério Marinho e Izalci Lucas Ferreira respectivamente, ambos do PSDB. Grosso modo, esses dois projetos trabalham com a ideia de uma possível neutralidade na educação.

A pergunta que não me deixo de fazer, e seria importante que todos fizessem, é: qual ideologia? É mesmo possível a tão requerida neutralidade? Ensinar ou aprender que o Brasil foi descoberto por acaso por navegantes experientes que desejavam ir às Índias é parte de uma educação neutra? Um currículo que privilegia ciências exatas em detrimento de ciências humanas é um currículo neutro?

A resposta, espero que óbvia, é não! Tudo e todos estamos carregados de ideologias. Sim, i-de-o-lo-gias. Este termo que parece assustar, mas que nada mais é que o conjunto de nossas vivências, experiências, práticas sociais, crenças etc., ou seja, a nossa percepção de mundo.

A ideia falaciosa de neutralidade é apenas para maquiar que ainda no século XXI vivemos sob o domínio de ideologias retrógradas como a do racismo que carrega, ainda hoje, o mito da democracia racial e ignora os lamentáveis casos de racismo que acontecem cotidianamente em todas as partes do país; a do machismo, que violenta psíquica e fisicamente mulheres em todo o mundo; a da heteronormatividade, que coloca como patológica ou demoníaca as orientações sexuais que se diferem deste padrão; as ideologias religiosas que legislam no nosso estado laico... Enfim, ideologias muitas que constroem nosso mundo tal como é ou, prefiro pensar, está.

O que me assusta quando vejo tais projetos é que não acredito – e torço para estar totalmente equivocada – que a preocupação se volte a essas ideologias dominantes que causam vítimas cotidianamente. Infelizmente o que temos assistido é a uma criminalização das ideologias que rompem com esse padrão predominante. É chamada de professora ideóloga a que fala sobre feminismo, sobre desigualdade social, que luta por direitos iguais sem distinção de gênero, jamais o professor que faz a piada machista ou homofóbica e que fala de mais de 300 anos de escravidão como algo natural e não como uma ideologia da época (da época?). Então, qual ideologia está se querendo evitar que nossas crianças e adolescentes tenham acesso na escola?

O desconhecimento sobre ideologia chegou a tal ponto que pudemos ver nas últimas manifestações cartazes com “Fora Paulo Freire” levantados por pessoas que talvez nunca o tenham lido, mas o rejeitam porque este é um ideólogo. Sim, Paulo Freire está carregado de ideologia. Assim como também estão: Florestan Fernandes e Karl Marx e, na direção oposta, Hitler e Thomas Malthus, apenas para exemplificar. Assim como também o padre ou pastor; o político em que você votou; a novela e o jornal de notícias que assiste, a vida social que te rodeia estão carregados de ideologia, e isto não é demérito, é apenas um fato.

Uma educação pluralista de qualidade deve prezar para que os estudantes tenham acesso a todos os conhecimentos socialmente construídos, carregados das diferentes ideologias, apenas desta forma é possível falar em liberdade de ideias, porque para odiar ou amar Marx ou Adam Smith, por exemplo, é preciso conhecê-los e estudá-los, do contrário apenas está se repetindo acriticamente ideologias alheias.

Por fim, não há escola sem ideologia, o que os projetos citados desejam é manter o domínio de ideologias convenientes à manutenção da sociedade racista, machista e homofóbica que perpetua há mais de 500 anos por aqui, prevendo punição – que pode chegar a prisão de até 3 anos! – aos professores que “ousarem” dizer que há outro lado na moeda.

Publicado originalmente em: Jornal Novo Contexto em 16/11/2015.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Comemorar o “dia do índio”?

Luciano Ariabo Kezo estuda letras na UFSCAR e escreveu livro que ajuda a ensinar a língua umutina-balatiponé. Fonte: http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2015/04/indigena-diz-que-19-de-abril-nao-existe-estamos-na-historia-todos-os-dias.html


Na próxima terça-feira, 19 de abril, comemoraremos o “Dia do Índio”. “Comemoraremos” parece uma forma sádica de se referir à data, uma vez que o cenário para os verdadeiros donos dessas terras, é desastroso. Aprovada em 1940, a data foi estabelecida para que o dia fosse dedicado ao estudo da situação indígena nas diversas instituições de ensino.

Entretanto, reproduzimos até hoje a história de que o Brasil foi descoberto, e não invadido, pelos portugueses. Conta-se na história oficial que nessas terras vivia um povo selvagem que aguardava para ser catequizado e ter sua questionável alma atestada. Questionável porque foi apenas em 1537 que o Papa Paulo III decidiu que os indígenas possuíam alma, mas uma alma vazia que, portanto, precisava ser preenchida pela verdade divina que vinha do homem branco civilizado. E assim se consolidou, pela razão colonizadora, amparada na fé cristã, o plano de invasão e saque destas terras, o plano que em nome de Deus matou, escravizou e aculturou.

Ao longo desses 500 anos, apesar da vitória na “Independência ou morte”, seguimos pelo mesmo caminho dos colonizadores, matando e quase dizimando a população indígena que, na verdade, é a real família tradicional brasileira. Em 2010 chegamos ao lamentável patamar de apenas 0,26% de indígena na composição do total da população.

Indígenas foram e são assassinados. Na ditadura militar brasileira, o número de pessoas mortas reconhecido oficialmente é de 434, entretanto, ao menos 8,3 mil indígenas foram assassinados em nome do progresso. E segue-se a matança: dezembro de 2015: uma criança indígena foi assassinada no colo da mãe em Santa Catarina; janeiro de 2016: um indígena teve a cabeça esmagada por 15 chutes e pisões em Belo Horizonte; no Mato Grosso do Sul, pistoleiros têm atacado diariamente os povos Guarani e Kaiowá... Quantos desses fatos você ouviu noticiado?

Além desse cenário de constante ataque e desrespeito a essa minoria que, sendo sociológica, tornou-se também numérica, os povos indígenas encontram todos os tipos de resistência para serem aceitos e inseridos na sociedade com suas especificidades e direitos. Predomina por aqui a ideia de que ao lutar por suas terras, atrasam o desenvolvimento do país, que são preguiçosos, e que se não estiverem nus e com cocar na cabeça, não são mais “índios”.

De fato, “índio” não é a expressão mais adequada a se usar porque esta foi uma denominação utilizada pelos portugueses que acreditavam (?) estar na Índia e por muito tempo chamaram as terras invadidas de Índia Ocidental. Assim, ao se depararem com a população indígena, automaticamente denominaram-na “índios”. Contudo, atualmente tem sido mais aceita a expressão “indígena” que significa “originário da terra”, “nativo”.

Para Luciano Arikabo Kezo, do povo Balatiponé, pelo viés identitário, um “indígena” sempre se identificará a partir do seu povo, assim como nós nos identificamos como brasileiros, por exemplo. E são muitos os povos indígenas no Brasil, cada um com estrutura linguística e cultura próprias. Aikanã; Aikewara; Barasana; Chamacoco; Desana; Enawenê-nawê; Guarani; Ingarikó; Jarawara; Kariri; Munduruku; Nadöb; Panará; Tapajó; Tabajara; Waiwai; Xavante; Xerente são apenas alguns deles.

Diante de toda essa diversidade o que faz a escola, além de ensinar que “pra mim fazer” é jeito de índio falar, propagando a ideia preconceituosa e caluniosa do indígena ignorante, quando o português é, na verdade, sua segunda língua.

Cabe ainda que em 2016, no “Dia do Índio”, a escola, como um aluno cansado de ter que escrever a redação sobre as férias, mas precisa cumprir tabela, prepare uma atividade “artística” reproduzindo e reforçando o estereótipo do índio nu, com cocar na cabeça, sem se preocupar em ser, de fato, o local propulsor dos fatos científicos que desvelam toda a diversidade cultural, linguística, como também a situação atual dos povos indígenas, possibilitando uma visão menos turva da realidade?

Algumas escolas avançaram uma casa e, na data, chamam um indígena para conversar com as crianças. Legal, mas quem discute os direitos de todos os povos denominados genericamente de indígenas? Quem discute sobre o agronegócio, sobre as construções de usinas, sobre os ataques de pistoleiros, sobre o racismo, sobre todas as violências que continuam a matança iniciada em 1500, em nome da “ordem e progresso”, que ignora a humanidade de quem sempre foi dono das terras e hoje precisa lutar para, antes de tudo, permanecer vivo nas mesmas?

Vestir cocar e pintar o rosto não cumpre a tarefa educacional de “comemorar o dia do índio”. Se o objetivo for mesmo comemoração, que seja pelos avanços. Comemoremos o primeiro reitor indígena do Brasil na Universidade Federal de Roraima; a indicação do artista indígena do povo Macuxi, Jaider Esbell, ao Prêmio Pipa de Arte Contemporânea; o ingresso de Indígenas nas universidades federais pelas cotas étnico-raciais; o primeiro indígena, Lennon Ferreira Corezomaé do povo Umutima, a ingressar no mestrado da UFSCAR... Que comece a festa!


Publicado também em Jornal Novo Contexto

domingo, 3 de abril de 2016

Apesar de você

Neste final de semana fui convidada a participar de um novo grupo de whats app. Era o grupo de formandos de 1998 da escola na qual terminei o Ensino Fundamental. No pouco tempo entre o contato inicial e ser inserida no grupo me vi perdida nas centenas de mensagens. Notícias de pessoas que o tempo havia me feito esquecer. Notícias tristes. Notícias alegres. Casamentos. Filhos. Trabalhos. Mudanças. Morte...
Em meio a tantas mensagens, muitas recordações com um tom de saudosismo que eu não conseguia sentir. Senti saber o falecimento de uma colega. Do mais, ficava pensando onde eu estava enquanto aquelas alegrias todas foram compartilhadas. Nessa busca deparei-me com o passado que muitas vezes eu fiz questão de não lembrar: eu pude ver novamente aquela menina de óculos, cabelos crespos compridos sempre presos e gordinha que sempre fora alvo das “piadas e brincadeiras” seguida das risadas dos colegas, nem sempre tão amigos assim.
Deparei-me com o bullying em uma época que o assunto não era discutido como agora. Deparei-me com a vergonha em ser como eu era. Deparei-me com aquela dificuldade em aceitar meu corpo e meu cabelo, ainda sem saber que o que diziam sobre o meu cabelo era racismo.  
Bullying e racismo são duas violências, muitas vezes ignoradas, secundarizadas e até mesmo negadas, que trazem consequências das mais desastrosas à vida de uma criança ou adolescente. Apesar disso, nem sempre têm suas especificidades compreendidas socialmente ou, ainda pior, por professores que deveriam ser agentes do combate a estas violências.
Do senso comum de que “antes a gente brincava e ninguém falava que era bullying”, como se o fato do não falar fizesse com que uma violência não existisse, à ideia de que qualquer violência cometida no ambiente escolar seja bullying, o termo vem se desgastando sem que seja compreendido em sua essência, o que dificulta a busca por ações para eliminá-lo do ambiente escolar.
Um exemplo que costumo usar para explicar o tema são as conhecidas histórias da Turma da Mônica. Muita gente ilustra os xingamentos dos personagens Cebolinha e Cascão como bullying com a personagem Mônica, no entanto, não é o que acontece nesta relação porque a Mônica não se intimida e sempre responde com a violência física. O que acontece nas histórias são dois tipos de violências: verbal e física que como violências devem sem enfrentadas e repudiadas.
O próprio Maurício de Souza na Edição 45 da revista Turma da Mônica Jovem trouxe o tema à tona. Nele a Mônica se expressa afirmando que não sofreu bullying. Ora, o que é bullying então? É uma violência, verbal e/ou física, repetitiva e implicada numa relação de poder em que uma pessoa ou um grupo intimida outra, geralmente, mais vulnerável que não responde as agressões. A vítima, intimidada, na maioria das vezes, tem medo de denunciar e procurar ajuda, o que torna os agressores livres para agirem na sua violência covarde.
Outra forma de violência que acompanha muitas crianças e adolescentes durante a vida escolar é o racismo, violência enquadrada como crime desde 1989. Há diversas pesquisas que apontam o quanto o ambiente escolar é hostil aos estudantes negros. Falta representatividade nos professores, na gestão, nos cartazes, nos brinquedos – bonecas negras ainda não são uma realidade em todas as escolas. O material didático, ainda hoje, repetidamente, apresenta o negro com características negativas, além de apresentar o povo negro apenas pelo viés da escravidão, ignorando a história e cultura de impérios africanos antes do ataque europeu ao continente, apesar de já haver lei que estabeleça a obrigatoriedade de tais conhecimentos no currículo.
Neste cenário, a criança ou adolescente negra se percebe dentro de um sistema que não dialoga com sua ancestralidade, que não valoriza sua história e cultura para além do samba e da feijoada, e ainda está exposta a ter sua identidade subjugada na “piada” racista com o aspecto do seu cabelo e com seus traços físicos.
Hoje, 20 anos depois do Ensino Fundamental, com as feridas cicatrizadas por um tempo que, sinto em dizer, não me deixou saudade, entendo meus caminhos traçados, minhas buscas e meu idealismo dentro da educação. Recupero as lembranças com a crítica necessária para seguir meu caminho.
Caminho não menos difícil que aqueles de 20 anos atrás, porém, com mais determinação. Determinação na minha essência, no meu cabelo cacheado. Determinação na busca pela educação que seja significativa e acolhedora a todas as crianças e adolescentes – negras, pobres, brancas, indígenas, gordas, magras, homossexuais, transexuais, heterossexuais...

Sim, mais uma das minhas utopias, mas que sigo caminhando com alegria e amor que transcendo e declaro sem medo, principalmente em tempos de ódios declarados sem pudor e com orgulho. Amor pela luta que me faz acreditar que amanhã vai ser outro dia. 

Publicada originalmente em: Jornal Novo Contexto    

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